Vacina contra coronavírus só deve sair no fim de 2020
Fonte: Valor Econômico (07 de maio de 2020)

Sidney Klajner: “Momento de relaxar o isolamento é quando novos casos estiverem longe de levar o sistema de saúde ao limite” — Foto: Silvia Zamboni/Valor
Com a previsão de que o pico da pandemia do novo coronavírus está mais próximo de atingir o Brasil, ainda não é hora de aliviar o isolamento social da população. Qualquer medida nesse sentido pode pressionar ainda mais o sistema de saúde, que já opera perto do limite em diversas regiões do país. A cautela também é necessária porque a vacina contra a doença só deve estar disponível em larga escala no fim do ano. As opiniões são de Sidney Klajner, presidente do Hospital Albert Einstein.
“Projeções indicam o pico da doença deve ocorrer entre os dias 3 e 10 de maio. As estimativas estão sujeitas a erros, mas acho que estamos próximos desse pico”, disse ontem em live do Valor.
O presidente do Einstein lembrou que a decisão sobre o relaxamento do isolamento deve observar a evolução de casos de covid-19. “Momento de relaxar o isolamento é quando novos casos estiverem longe de levar o sistema de saúde ao limite”, disse.
Segundo ele, isso não se aplica hoje à situação do Estado de São Paulo, localidade com maior número de casos e mortes no Brasil. “Não conseguimos comprovar que o pico dos infectados já aconteceu aqui”, disse.
Embora os estudos para a produção de vacina contra a doença estejam em ritmo acelerado pelo mundo, a fase de testagem está, mesmo nos casos mais avançados, apenas no início. “Existe a perspectiva de vacina produzida em larga escala até o fim do ano”, afirmou, lembrando que muitas iniciativas projetam ter até meados do meio do ano um medicamento pronto para começar a ser avaliado em humanos.
Anteontem, a Organização Mundial de Saúde (OMS) anunciou parceria com mais de 40 países, que doaram conjuntamente € 7,4 bilhões para contribuir com a distribuição e produção de uma vacina contra o novo coronavírus. Brasil e Estados Unidos estão entre os que ficaram de fora de aliança mundial.
Questionado, Klajner disse que, por enquanto, não há comprovação científica de que a hidroxicloroquina, cujo uso é defendido pelo presidente Jair Bolsonaro, seja um remédio eficaz contra a covid-19. “É muito cedo para falar da hidroxicloroquina porque não há comprovação de eficácia. Ela faz parte de um protocolo de pesquisa, não de um protocolo de tratamento”, disse.
O presidente do Einstein afirmou não ser contrário à implementação de uma fila única para atendimento dos pacientes da pandemia, mas que a medida deve ser regulamentada e não prever apenas o confisco de equipamentos ou leitos pelo governo. “Há necessidade de se fazer uma regulação para usar leitos ociosos para o setor público. Se simplesmente for confiscado um leito, o setor privado para de comprar insumos”, opinou.
Klajner ressaltou, porém, que desde que as regras do novo modelo sejam claras, muitos hospitais privados poderiam atuar para atender a essa demanda. “É melhor ter uma UTI girando com alguma receita do que ficar parada com um custo fixo”, disse.
No Eistein, 500 colaboradores contraíram a doença e, destes, apenas 170 eram profissionais da saúde, como médicos e enfermeiros. Segundo Klajner, isso desfaz um mito sobre uma suposta insegurança de ambientes hospitalares. “A grande parcela dos colaboradores tiveram contaminação comunitária, ou seja, contaminação nos seus ambientes de convívio, no transporte público, e acabaram trazendo a infecção para dentro do hospital”, disse.
Dos infectados, mais de 300 retornaram ao trabalho. De acordo com Klajner, as medidas de proteção, como uso de máscaras e assepsia constante, são obrigatórios a todos, incluindo os funcionários de áreas administrativas.
Para minimizar o risco de contaminação de outros pacientes, o hospital adotou um protocolo para isolar os suspeitos de terem contraído o novo coronavírus dos demais. “Temos duas estruturas de atendimento. O paciente com sintomas respiratórios ou gripais é dirigido para um ‘fluxo’ diferente, e identificado pela cor vermelha. Aqueles que vêm ao hospital para procedimentos corriqueiros ou agendados vão para outros ambientes”, disse.