Pode-se crescer no trabalho remoto sem um ‘burnout’ doméstico
Fonte: Valor Econômico (27 de abril de 2020)
Nunca estivemos tão preocupados com a nossa produtividade como nesse home office repentino ao qual fomos empurrados por conta da pandemia. A insegurança vem basicamente de algumas perguntas que assombram diariamente a nossa nova rotina de trabalho. Como será que o meu desempenho está sendo avaliado? Será que o meu chefe percebe que estou ralando muito mais em casa do que no escritório? E se esse modo de trabalho vingar na minha empresa, será que eu vou conseguir continuar crescendo na carreira ou vou ficar no limbo dos que não são vistos, portanto, são esquecidos na hora das promoções?
Como tudo nesse momento são incógnitas, é difícil até para os especialistas serem conclusivos em sua respostas, mas já existem algumas pistas sobre como o trabalho a distância influencia a carreira. E elas podem ser até animadoras. Um exemplo é um estudo realizado pelo professor de administração Timothy D. Golden, da escola de negócios do Instituto Politécnico de Rensselaer, nos Estados Unidos, divulgado no fim de fevereiro. Ele compara a evolução da carreira de 400 trabalhadores remotos e não-remotos em um mesmo período e mostra que ambos conseguiram receber promoções.
Uma notícia reconfortante, mas nem tanto. Nesse caso, os remotos foram promovidos, porém os seus salários continuaram menores. E aqueles que conseguiram as promoções estavam em empresas que possuíam regras claras sobre trabalho a distância, o que não é o caso da maior parte das companhias no mundo que estão hoje tateando às cegas para criar regras e padrões do dia para a noite para esse nosso home office improvisado.
Outra condição, assinalada no experimento de Golden, é que os profissionais remotos que conseguiram galgar alguns degraus em suas companhias realizaram algum tipo de trabalho suplementar. Ou seja, entregaram algo a mais do que é previsto em seu job description.
Se fosse no Brasil, muita gente que está em home office certamente estaria nesse grupo que recebeu o aumento. Em uma pesquisa pela realizada em março, 770 profissionais da região Sudeste, de diversos setores, disseram que estavam trabalhando mais no home office do que na empresa. Em outro levantamento, com 620 executivos, 40% disseram que o trabalho tinha aumentado com a pandemia, considerando que mais de 80% deles estavam trabalhando trancados em casa. Ou seja, todo mundo está trabalhando demais no home office, da alta liderança aos cargos mais operacionais.
O fato é que seja pelo medo do nosso trabalho não ser percebido ou pela nossa incompetência em estabelecer limites de horário para separar a vida pessoal e profissional no confinamento, estamos mais estressados. Pior, fazendo hora extra e nem devemos receber a mais por isso. Será que essa alta performance pode influenciar a nossa carreira no futuro? Provavelmente isso vai depender dos métodos e métricas de avaliação que a sua empresa está usando, além da sua habilidade para lidar com chefes e colegas remotos. Lembrando que hoje muitos de nós fazemos parte de um grande experimento de trabalho a distância meio desgovernado.
Cabe aos profissionais, portanto, aprenderem a cuidar melhor da própria sanidade e estabelecer uma hora para se desconectar do trabalho em casa. Não podemos deixar que o burnout doméstico que enfrentamos hoje na quarentena se perpetue e se torne o que todos agora querem chamar de “o novo normal”. Estamos dando um péssimo exemplo a nós mesmos. Não dá para saltar da cadeira toda hora que o telefone toca (sim, agora atendemos até o telefone fixo pensando que pode ser alguém do trabalho), responder mensagens e e-mails sem parar ou engolir o almoço em quinze minutos para poder estar sempre a postos. Ser produtivo não é isso.
Entregar o resultado de um trabalho feito de forma competente e criativa no prazo certo pode ser muito melhor para a sua carreira do que estar sempre disponível para uma infinidade de reuniões no Zoom ou para aquela troca infinita de mensagens nos grupos de WhatsApp da firma.