China opera a 75%, mas um retorno total pode demorar
Fonte: Valor Econômico (08 de abril de 2020)

Segundo Kroeber, fundador da consultoria Dragonomics, economia doméstica chinesa vai bem, mas o setor de exportações terá forte queda no trimestre — Foto: Agência O Globo
A China subestimou o impacto do coronavírus dentro e fora do país. Apostou que a crise sanitária seria uma repetição do sars, de 2003, quando o país viveu um problema, mas EUA e Europa estavam seguros, diz o economista americano Arthur Kroeber. A China retomou 75% do nível médio de sua atividade econômica, mas, argumenta, com o mundo caminhando para ma recessão, é difícil imaginar uma total recuperação da segunda maior economia global.
“A economia doméstica está indo bem, mas o setor de exportações terá forte queda nos próximos meses”, disse em entrevista ao Valor, por telefone. Ele estima que as exportações chinesas para os EUA devem cair até 60% e para a Europa, 45% no segundo trimestre. Kroeber, que é um importante especialista em China, acrescenta que, até agora, autoridades chinesas foram contidas em suas respostas monetárias e fiscais, mas podem ter de lançar mão de mais estímulos.
Fundador da consultoria Dragonomics, uma unidade da financeira Gavekal, baseada em Hong Kong, Kroeber argumenta que as autoridades chinesas foram mais rápidas em implementar medidas restritivas para conter o vírus que outros países, o que significa que na Europa e nos EUA o estrago econômico deverá ser maior.
O mundo em recessão e a China crescendo menos, observa, não devem levar a mudança estrutural no modelo econômico chinês, com foco em investimento público e exportação, mas podem fazer Pequim abandonar o regime de meta de crescimento do PIB, diz. “Um crescimento acima de 6% não é apropriado para uma economia do tamanho da China. Faz sentido para países mais pobres, que precisam crescer o quanto for possível. Mas com a economia mais sofisticada, o ritmo será mais lento.”
Com a crise atual, afirma, o mundo pode se tornar mais protecionista e aumentará a pressão para realocar cadeias de produção, especialmente no setor de equipamentos médicos. “Diversificar essas cadeias será visto como uma questão de necessidade nacional.”
Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:
Valor: Em um webinar do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) e da Fundação Fernando Henrique Cardoso, na semana passada, o sr. disse que seria preciso mais um mês para a China recuperar 100% de sua atividade econômica. Qual o nível de atividade da China hoje e por que mais um mês?
Arthur Kroeber: Precisamos definir o que recuperação completa significa. Um dos problemas é que a economia doméstica está indo bem, mas o setor de exportações terá forte queda nos próximos dois ou três meses, porque EUA e Europa estão entrando agora numa recessão muito severa. Haverá queda de 20% a 30% das exportações totais chinesas. E isso terá impacto significativo na taxa de crescimento da China. Então a definição de recuperação completa é diferente do que era antes da epidemia.
No fim de janeiro e na maior parte de fevereiro boa parte do país estava sob medidas de restrição. No fim de fevereiro, o governo começou a se concentrar em reabrir a economia, encorajar as pessoas a voltar ao trabalho e as empresas, a operar. Em março, primeiro mês de volta ao trabalho, cerca de 75% do nível normal da atividade econômica foi retomado, mas de maneira muito desigual. As pequenas empresas têm dificuldade em voltar, e há muitos problemas que, se durarem mais um mês, as obrigarão a fechar.
Valor: De quanto será a queda das exportações chinesas aos EUA?
Kroeber: Temos estimativa de queda de entre 25% e 60% das exportações chinesas para os EUA e de entre 25% e 45% das vendas para a Europa no segundo trimestre. Dada a contração muito mais severa da economia do que vimos em 2008, acreditamos em uma contração muito mais severa das importações que vêm da China.
Valor: Então é difícil pensar em recuperação completa da china com recessão nos EUA e na Europa?
Kroeber: Sim, exatamente.
Se a China conseguir evitar uma segunda onda de casos, o estrago econômico será pior nos EUA e países da Europa
Valor: As empresas pequenas, que respondem por mais de 80% do total na China, serão as mais atingidas, não apenas no país, mas também nos EUA e na Europa, como o sr. disse. Quais respostas políticas são necessárias para ajudá-las?
Kroeber: As autoridades chinesas identificaram esse problema muito cedo e lançaram uma série de medidas para lidar com isso. Foram rápidas em dizer que as empresas não precisavam pagar impostos e seguro social. Tiraram das mãos das empresas um monte de custos e encorajaram os bancos privados a emprestar dinheiro e oferecer linhas de crédito. Outra coisa que fizeram foi distribuir vouchers de consumo às famílias, e isso é bom porque eles têm de ser gastos, é diferente de ir ao banco, sacar dinheiro e não gastar.
O problema é que essas pequenas empresas operam com margem muito apertada e dependem do fluxo de caixa de um mês para o outro. Não importa, então, se o governo não está recolhendo impostos. Essas empresas não têm receita e não têm nenhuma reserva. Elas basicamente terão de fechar.
E há uma questão do ponto de vista da demanda. Mesmo que o país volte ao trabalho, as pessoas estão bastante confinadas para sair e fazer as coisas normalmente. Elas não lotarão rapidamente os restaurantes e shoppings, como costumavam fazer. Elas terão precaução, porque estão assustadas. A recuperação para as pequenas empresas, portanto, será lenta. E não sei como lidarão com isso, porque é uma questão psicológica.
O que tem de ser feito é criar algum mecanismo para evitar que pequenas empresas fiquem vulneráveis quando não tiverem clientes, e isso significa ter linhas de crédito e alívio no aluguel, que é uma parte importante de seus custos. É preciso um mecanismo que as permita não pagar o aluguel até que tenham algum fluxo de caixa. E, para isso, precisa haver apoio para os proprietários dos imóveis que têm esse aluguel como renda. Não vi muitas coisas nesse sentido até agora nos EUA.
Valor: Maiores intervenções para apoiar trabalhadores e empresas aumentarão o papel do governo na economia? Que tipo de modelo econômico pode sair disso?
Kroeber: É difícil dizer. Muitas coisas foram feitas agora em condições de emergência, e, uma vez que tudo assentar, veremos um grande debate sobre questões estruturais como essa. Parece óbvio que em alguns países, como EUA e na Europa, os governo têm de ter planos emergenciais mais extensos e estoques de bens que são chave, o que os levará a pressionar fornecedores domésticos de equipamentos médicos, por exemplo. A questão é quanto disso será traduzido em uma visão mais ampla de que é preciso depender muito mais da produção interna e menos do que é feito fora.
A maior questão, que envolverá muito debate politico, é sobre o “trade off” entre eficiência e segurança. Quanto mais você cria amortecedores na economia para garantir segurança, seja segurança médica ou nacional, mais reduz a eficiência. E muitas economias, especialmente os EUA, foram construídas em um modelo focado na eficiência nas últimas duas décadas. Acredito que muitas pessoas verão que isso não é mais razoável. E que serão necessárias mais medidas de segurança, sendo algumas delas relacionadas à garantia de renda. Temos hoje nos EUA seguro desemprego, mas não uma rede de seguridade social ampla. E haverá muita discussão sobre tornar algumas coisas permanentes e criar uma política de seguridade social.
Valor: Quais cadeias de valor sofrerão maior pressão para sair da China depois da crise?
Kroeber: A pressão será mais intensa em produtos como farmacêuticos, cirúrgicos e equipamentos médicos. Diversificar essas cadeias de produção será visto como uma questão de necessidade nacional. Isso é mais complicado em áreas como tecnologia, na qual há relutância em abandonar a China. Por um lado, há muita pressão, pela guerra comercial, para tirar cadeias de produção da China, e essa epidemia pode ser um motivo a mais a reforçar isso. Não acho que a conclusão será: ‘Por causa desse vírus é perigoso ter nossa produção na China, portanto, e devemos recolocá-la para outro lugar, talvez nos EUA’. O argumento será mais no sentido de diversificação. No fim das contas, a maior parte dos produtores de equipamentos médicos terão a China como um hub extenso, porque lá há vantagens que nenhum outro lugar tem. Mas muitas empresas começarão a pensar: ‘Precisamos de um plano B e um plano C, além da China’.
Valor: As consequências da epidemia nos EUA e na Europa serão maiores, já que a China de certo modo apenas ampliou a interrupção da atividade do Ano Novo Lunar?
Kroeber: Sim, acho que inicialmente esse é o risco. EUA e Europa responderam muito mais tarde à epidemia e, portanto, o estrago econômico pode ser maior. Mas ainda não é certo que a China evitou uma segunda onda. Há casos importados, de pessoas que vêm de fora, e há riscos de contágio local. Sabemos que as autoridades chinesas não estavam publicando cifras sobre casos assintomáticos, então, na verdade, pode haver mais infectados do que pensamos na China. Além disso, uma vez que as pessoas voltem a trabalhar e comecem a fazer as coisas, há risco de segunda onda. Portanto, inicialmente o estrago será pior nos EUA e na Europa do que na China. Mas isso se a China não tiver uma segunda onda. Se tiver, será um estrago maior que nos outros países.
Valor: Os EUA caminham para uma depressão, em sua opinião? As estimativas são terríveis e economistas começam a falar nisso.
Kroeber: O problema de falar em depressão é que não sabemos o que realmente significa. Em vez de dizer recessão ou depressão, diria que tudo depende de quão profunda e longa essa desaceleração será. No nosso melhor cenário, vemos a China contraindo-se de 3% a 4% no primeiro trimestre, em comparação com o mesmo período do ano passado. E uma queda de 7% a 8% no segundo trimestre, em base anualizada. Acho que esse é um bom modo de estimar o impacto que EUA e Europa terão. Nos EUA, esperamos queda da economia de 7% no segundo trimestre, na comparação com o mesmo período de 2019. Muitos falam em quedas de 20% a 30%, mas são variações de um trimestre para outro. São estimativas sujeitas a novas revisões.
O ponto central é que o tamanho da desaceleração será maior do que na crise de 2008/09 nos EUA, na Europa e na China. A grande questão é o quanto isso vai durar. Alguns falam num período duro de três meses e uma curva de recuperação econômica em formato V, até voltar ao normal no terceiro trimestre. Outros dizem que serão ao menos seis meses para as pessoas voltarem ao trabalho e a economia se recuperar da epidemia, o que sugere que estaremos perto do nível normal no fim do ano. É muito difícil saber qual dos dois caminhos é mais provável, porque não sabemos quão ruim será o estrago feito pelo vírus, quanto tempo durará o confinamento e quais restrições sobre viagens permanecerão.
Há pressão pela guerra comercial para tirar cadeias de produção da China. Essa crise pode ser um motivo a mais
Valor: Desta vez as respostas monetárias e fiscais da China foram mais tímidas comparadas às da crise financeira. Por quê?
Kroeber: As autoridades foram rápidas e agressivas em medidas para dar suporte às companhias, suspendendo pagamento de impostos. Não é que não estejam fazendo nada, só estão fazendo coisas mais específicas. Acredito que há duas razões para terem sido mais tímidos com políticas monetárias e fiscais. A principal é que muitas autoridades na China veem hoje os grandes estímulos de 2009 como um erro. Foram quantidades enormes de dinheiro que não foram bem coordenadas, para projetos bons e projetos desperdiçados, e encorajando governos locais a não serem responsáveis. E isso contribuiu para um aumento enorme da dívida interna de 2009 a 2016, que agora eles lutam para controlar. Institucionalmente, as autoridades chinesas pensaram: ‘Isso foi um erro e não vamos cometê-lo novamente’. Essa é uma razão.
A outra é que eles provavelmente subestimaram o impacto econômico que isso tudo teria. Eles começaram a quarentena no Ano Novo Lunar, no primeiro trimestre, época com o menor nível de produção do ano. Pensaram: ‘Isso terá um custo econômico, mas não será tão ruim a ponto de termos de ajustar nossa política fiscal e monetária. E, com essa atitude, até certo ponto compreensível, ignoraram que o dano econômico é muito mais profundo do que esperavam e que não contavam com uma recessão global. Eles pensaram: ‘Temos o vírus controlado aqui, e será como a sars. Temos um problema, mas o resto do mundo está seguro. Então, uma vez que retomemos a atividade, tudo estará bem’. Mas agora percebem que o mundo caminha para uma recessão global, as exportações chinesas cairão e isso impactará negativamente a economia.
O conservadorismo institucional, baseado nas lições da crise passada, e subestimar o quão severo seria o estrago econômico, interna e externamente, levaram a uma abordagem mais tímida. E agora eles veem que talvez precisem acelerar os estímulos, com projetos de infraestrutura e outras políticas fiscais e monetárias.
Valor: O sr. acredita que essa crise implicará em uma mudança no modelo econômico da China? O que esperar em termos de investimento em infraestrutura e do regime de metas de crescimento do PIB?
Kroeber: Estruturalmente, não. Acho que o governo tem um plano claro para a economia na próxima década, com foco em política industrial, especialmente em tecnologia, com disciplina na área financeira, para impedir o crescimento da dívida, além de medidas para estimular o consumo das famílias. Não acredito que isso mudará.
O que pode ocorrer é uma discussão sobre a meta de crescimento do PIB. Há muitas empresas privadas importantes que argumentam que essas metas de crescimento não são úteis e que, se neste ano a China conseguir crescer 3%, está bom. Essa é uma oportunidade para esse conceito de meta de crescimento do PIB ser eliminado. Há uma chance grande de o resultado disso ser a flexibilização desse regime. E, francamente, isso é bom.
Um crescimento acima de 6% ou mais não é apropriado para uma economia de tamanho da China. Faz sentido para países em desenvolvimento mais pobres, que precisam crescer o quanto for possível, como era a China nos anos 1990 até o início dos anos 2000. Mas, com a economia mais sofisticada, o ritmo será mais lento.
Valor: O que significa isso para parceiros comerciais como o Brasil? As coisas voltarão a ser as mesmas depois desta crise?
Kroeber: Como disse outro dia o embaixador brasileiro Marcos Caramuru no webinar, a China está tentando usar o atual momento para enfatizar como tem interesse na cooperação global e aprofundar laços comerciais e de investimentos com o resto do mundo. Eu concordo. Há muitos países que não são como os EUA, fechados numa competição geopolítica com a China. A China acredita que o vírus não é uma razão para romper laços, mas para aumentar a cooperação internacional. Nos EUA o que deve acontecer é a epidemia ser vista como mais uma razão para separar a economia americana da chinesa, ser mais competitivo e haver maior rivalidade estratégica.
Para outros países, depende de como os EUA jogarem esse jogo. Se o governo americano diz: ‘A China está aumentando investimentos e trocas comerciais com o resto do mundo e deveríamos fazer o mesmo, ter nosso próprio programa de desenvolvimento em infraestrutura, nossa agenda comercial, mais acordos com outros países’, seria uma competição saudável. Mas, se os EUA disserem: ‘Estamos em competição com a China, temos de ser mais protecionistas, encorajar o resto do mundo a fazer o mesmo e, basicamente, forçar outros países a escolher entre nós e a China’, então será muito mais difícil. Francamente, essa é uma política estúpida para os EUA, mas há muitos que a defendem.
Valor: A crise pode, então, levar a um mundo mais protecionista?
Kroeber: É uma possibilidade. Se as autoridades de cada país decidirem que fronteiras abertas, fluxo intenso de viagens e pessoas circulando for uma má ideia, e a conclusão for de que precisamos menos, fechando fronteiras, reduzindo fluxos de pessoas e focando mais em segurança nacional, sem se importar com os custos econômicos disso, teremos mais esforços protecionistas. E esse é um resultado claramente possível.