Integrar equipes e automação é desafio nas organizações

Fonte: Valor Econômico (28 de janeiro de 2020)

As organizações pretendem aumentar o investimento em automação, esperam mudanças em sua força de trabalho decorrentes desse movimento, mas ainda não sabem como integrar novos talentos e redesenhar a contratação de sua mão de obra para os novos formatos digitais.
 
A conclusão é de um estudo global realizado pela consultoria Willis Towers Watson com 1.014 organizações, de 40 setores, em 44 países. No Brasil, foram 71 empresas, pouco menos de 10% da amostra global.
 
Mais de 90% das empresas participantes afirmaram que utilizarão alguma forma de automação para realizar o trabalho nos próximos três anos. Nessa conta entram empresas que já utilizam automação há três anos, aquelas que começaram a usá-la recentemente e as que pretendem fazê-lo nos próximos três anos. É por essa razão, analisa a consultoria, que o mundo do trabalho entra em uma nova fase.
 
“Daqui a três anos, teremos um perfil de empregados bem diferente do perfil atual”, afirma Glaucy Bocci, diretora de gestão de talentos na Willis Towers Watson. Até hoje, grande parte da automação foi utilizada em processos já existentes ou para dar suporte ao trabalho humano. As próximas tendências – considerando um cenário onde muitas companhias já operam de forma mais eficiente após substituir e automatizar tarefas humanas repetitivas – envolvem o redesenho de cargos, a expansão de novas modalidades de trabalho e a redução de exigências relativas à competências muito especializadas.
 
O problema, na análise da consultoria, é que esse redesenho não está entre as prioridades estratégicas da maior parte das organizações. Apenas 29% das entrevistadas se descreveram como eficazes em promover a integração da automação com os talentos internos – no Brasil, esse número foi de 21%. “Foi o item com menor percentual na nossa pesquisa. Conseguir isso perpassa definir bem os novos papéis na organização e também mudar a forma como as novas profissões serão remuneradas”, diz.
 
Quando questionados a respeito de quais áreas exigirão abordagens inovadoras para garantir os desafios envolvendo automação e digitalização, mais da metade dos funcionários entrevistados citaram os “programas de remuneração”. Entre os brasileiros, esse número é de 70%.
 
“A remuneração precisa evoluir considerando novas estruturas digitais e plataformas, e, no Brasil, até pouco tempo atrás, a legislação trabalhista engessava muitos mecanismos de recompensa”, diz Glaucy.
 
Ainda no recorte Brasil, os funcionários também apontaram a necessidade de uma abordagem inovadora em “gestão de desempenho” (avaliação, reconhecimento e retenção de talentos). “As empresas brasileiras precisam revisitar processos como feedback e avaliação de desempenho. Não dá mais para realizar, por exemplo, uma avaliação anual com os funcionários. É preciso manter conversas muito mais frequentes”, afirma Glaucy.
 
No contexto global, 66% dos funcionários apontaram o desenvolvimento de lideranças como a área que mais precisa de inovações. Segundo a consultoria, o líder da transformação digital precisa saber orquestrar um ecossistema diverso de opções de trabalho, que inclui, entre outros, inteligência artificial, robótica, parcerias e um amplo espectro de talentos em diferentes plataformas e locais.
 
Nesse último aspecto, a consultoria defende que a liderança precisa atentar-se ao número crescente de talentos contingentes, não CLTs e que trabalham em outros formatos, locais e jornadas. Entram aí agentes independentes, trabalhadores emprestados de outras organizações e profissionais recrutados em uma plataforma de talentos.
 
Segundo a pesquisa, o grupo de empresas que não depende atualmente de plataformas para recrutar profissionais, por projetos ou período específico, espera que em três anos mais de 4% de sua força de trabalho seja formada por agentes independentes.