A importância de calcular o preço do tempo individual
Fonte: Valor Econômico (18 de dezembro de 2019)
Ao longo de muitos anos o ditado “tempo é dinheiro” fez parte da cultura e comportamento das pessoas e famílias. Entretanto, algumas reflexões e aprendizados, especialmente após o surgimento da sociedade industrial e seus efeitos, nos levou a reconsiderar que o tempo pode ser até de ser mais importante que o dinheiro.
As razões para esta nova visão do nosso relacionamento com o tempo decorrem de duas novas constatações. A de que o tempo é inelástico – não podemos ampliá-lo – e de que é irreversível – não é possível ser resgatado ou recuperado. Tempo passado não retorna de forma alguma.
Inversamente, nas formas como usamos e nos relacionamos com o dinheiro é possível encontrar inúmeros jeitos para “esticar” o seu valor e rendimento — tanto no consumo, como nos investimentos. Também é possível, com realocação de capital, compensar eventuais perdas passadas, causadas por decisões equivocadas ou erros de aplicação.
O conjunto destas observações veio à minha mente ao ler recente um estudo sobre preocupações financeiras da geração chamada Y (os nascidos entre 1980 e 1997), realizado pela planejadora financeira Karen Carr, da Society of Grownups, instituição especializada em educação e finanças pessoais localizada em Brookline, Massachusetts, nos Estados Unidos.
Entre as sugestões contidas no estudo, uma deles envolve a reflexão sobre a importância de saber qual o preço – ou valor – do tempo individual. A forma, para fazer isso, é proposta por Paula Pant, empreendedora de 32 anos e que atua no setor imobiliário.
“Para calcular, por alto, quanto vale o seu tempo, corte três zeros do seu salário anual e divida o resultado por dois. Isso equivale a 40 horas por semana por 50 semanas. Portanto, são 2 mil horas por ano”. Ela mostra um exemplo. “Se você ganha US$ 60 mil ao ano, seu tempo vale US$ 30 a hora. Portanto, se um projeto do tipo ‘faça você mesmo’ levar menos tempo do que uma hora e economizar mais que US$ 30, talvez valha a pena executá-lo”.
O estudo inclui também uma avaliação dos seus hábitos de consumo. Para Karen, “é de grande importância pensar e avaliar se as coisas que você faz e compra, no dia-a-dia, refletem seus valores. Caso você consiga perceber que seu consumo está bastante vinculado ao seu sistema de valores, esta coerência – entre gastos e valores pessoais – pode aumentar o seu grau de satisfação pessoal, além de funcionar como um estímulo à poupança”.
O que fica bastante claro nessa reflexão e em outros estudos mais recentes sobre a relação que mantemos com o dinheiro é que nossos gastos não podem estar desvinculados do projeto de vida de cada pessoa ou família.
Não basta acumular capital sem uma verdadeira e autêntica noção do que produz e dá sentido à nossa vida, como um todo. E isto deve ser avaliado em todos os papéis que vivemos: profissional, familiar, conjugal, individual, espiritual e social. Pense, reflita e compartilhe estas ideias. Não existem receitas mágicas. Cada um necessita descobrir o que funciona no seu caso.

Renato Bernhoeft é fundador e presidente do conselho da höft consultoria. Autor de livros sobre empresas familiares, sociedades empresariais e qualidade de vida