OCDE alerta para risco de uma estagnação global
Fonte: Valor Econômico (22 de novembro de 2019)
A atual estabilização da economia mundial em baixos níveis de crescimento econômico, de inflação e de taxa de juros não permite complacência das políticas. A situação permanece frágil e os desafios estruturais – comércio, digitalização, mudança climática, persistentes desigualdades – são assustadores, alertou ontem a economista-chefe da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), Laurence Boone.
Para a OCDE, a perspectiva para a economia global continua se deteriorando, em meio a persistentes incertezas políticas e fraco fluxo de comércio e investimentos. Além disso, a guerra comercial entre os EUA e a China não só elevou as tarifas, como tem estimulado a concessão de subsídios e outras distorções no comércio internacional.
Os conflitos comerciais estão enraizados em questões antigas, como subsídios para a agricultura que chegam a US$ 700 bilhões por ano, segundo relatório divulgado ontem. Nota também que subsídios industriais, que são proibidos pelas regras internacionais, estão se propagando com pouca transparência, como ajudas de US$ 16 bilhões para empresas de alumínio, sem mencionar nomes.
Cerca de 1,5 mil novas medidas que restringem o comércio foram implementadas pelas maiores economias desenvolvidas e emergentes. Tudo isso tem provocado disrupções nas cadeias de produção e a realocação de atividades nos países diz a OCDE.

A entidade estima uma desaceleração no crescimento do comércio mundial em volume (bens e serviços) para 1,2% neste ano, projeção idêntica à da Organização Mundial do Comércio (OMC). Para o PIB global, a OCDE prevê um crescimento de 2,9% neste ano e no próximo, a menor taxa desde a crise financeira de 2009. Em 2018, o PIB global cresceu 3,5%.
No curto prazo, as perspectivas para cada país são duras diante da importância do comércio. A economia dos EUA deve desacelerar para 2% em 2020 ante 2,3% neste ano. No Japão e na zona do de crescimento em torno de 0,6% e 1,1%, respectivamente, no próximo ano.
A China continuará desacelerando, para 6,2% neste ano, caindo para 5,7% em 2020. Um resultado ainda significativo, só abaixo da estimativa para a Índia, de 5,8% este ano e de 2% no ano que vem. A OCDE esperava uma desaceleração mais gradual da China, considerando as políticas de estímulos anunciadas pelo governo no ano passado. No entanto, a entidade observa uma significativa diminuição na demanda chinesa por bens e serviços produzidos no resto do mundo, afetando o comércio e o crescimento global.
Em parte, a queda nas importações chinesas é atribuída a mudanças estruturais na segunda maior economia do mundo, como um reequilíbrio de investimentos para consumo, substituição de marcas domésticas e movimentos para limitar os estragos ambientais. O crescimento potencial chinês também está se moderando por efeitos demográficos, segundo a OCDE. Outros emergentes devem se recuperar modestamente. No geral, as taxas de crescimento continuarão abaixo do potencial.
Para Boone, o baixo crescimento global está se consolidando mais por razões estruturais do que cíclicas. As preocupações aumentam com incertezas sobre os rumos das economias e a demanda fraca. A desaceleração da atividade industrial tem impacto no setor de serviços. Ela nota que o crescimento depende do consumo das famílias, mas a criação de emprego está diminuindo.
A OCDE observa que, se por um lado os bancos centrais têm agido para compensar impactos negativos das tensões comerciais e ajudar a evitar piora rápida das perspectivas econômicas, de outro, são poucos os países a utilizar a política fiscal para apoiar a retomada do crescimento. A entidade conclama os governos a reagir, retomando a cooperação internacional para dar fôlego à economia.