Dólar alcança R$ 4,20 e crava nova máxima
Fonte: Valor Econômico (19 de novembro de 2019)
A pressão global contra ativos emergentes, com a guerra comercial ainda viva entre China e EUA, e sobre países latino-americanos, envoltos em incertezas políticas, levou o mercado brasileiro a ser marcado por uma nova onda de busca por segurança. O exterior conduziu o dólar ontem a uma nova máxima de fechamento, na marca de R$ 4,20, e também levou o Ibovespa a apagar os ganhos de quase 1% no começo do dia.

O dólar comercial terminou o pregão com alta de 0,32%, a R$ 4,2060, acima da última marca histórica de 13 de setembro de 2018, de R$ 4,1952. Já o Ibovespa terminou em baixa de 0,27%, aos 106.269 pontos, depois de ter avançado 0,90%, aos 107.519 pontos, no início dos negócios.
O giro financeiro na bolsa foi de R$ 13,5 bilhões, acima da média diária dos pregões do ano, de R$ 12,5 bilhões. Vale notar que o volume foi intenso em uma semana em que há mais um feriado local – na quarta-feira, não haverá negócios na B3 devido ao Dia da Consciência Negra. Isso dá demonstrações do quão cautelosos permanecem os estrangeiros com a cena externa.
O avanço do dólar também fez com que as taxas dos contratos de Depósito Interfinanceiro (DI) terminassem com viés de alta no dia. Importante medida de risco, a taxa do contrato mais longo, para janeiro de 2025, saiu de 6,33% a 6,34% na sessão regular, enquanto a do contrato para janeiro de 2023 foi de 5,75% para 5,77%.
Na virada de outubro para novembro, a trégua comercial entre EUA e China, com a primeira fase de um acordo entre as duas potências, havia garantido uma melhora na migração de recursos estrangeiros para as ações já listadas (mercado secundário) da B3. Com a volta dos temores em relação ao assunto nas últimas semanas, porém, o movimento dessa classe de investidor voltou a pesar: no ano até o dia 13 de novembro, os estrangeiros já sacaram R$ 34,5 bilhões do segmento secundário; no mês, as retiradas estão em R$ 4,1 bilhões.
Segundo analistas, não houve um catalisador específico para a piora do sinal dos mercados, mas sim aquilo que já se sabe: as tensões políticas em países vizinhos ao Brasil, como Bolívia e Chile, e a árida negociação em prol de um pacto comercial entre chineses e americanos. Esse tipo de ambiente continua provocando volatilidade no câmbio brasileiro mesmo que a premissa para a atividade por aqui ainda seja positiva para o quarto trimestre e 2020.

Segundo Rodrigo Marcatti, sócio-fundador do escritório de gestão Veedha Investimentos, os investidores se ressentiram com as novas informações de que os chineses não estão tão confiantes com o sucesso da primeira fase do acordo comercial. A dúvida reside, conforme relatos da imprensa internacional, na retirada de tarifas impostas a produtos chineses, que Washington estaria com dificuldade de aceitar.
“As tensões sociais em países no entorno só nos atrapalham. A bolsa até demorou alguns dias para sentir os efeitos, mas já reage ao investidor reduzindo exposição, enquanto o real continua sendo atingido de frente”, afirma Vicente Matheus Zuffo, gestor da SRM Asset.
Segundo Eduardo Prado, sócio da RJ Investimentos, a valorização do dólar contra o real é um claro movimento de busca por proteção, mas que não muda o cenário positivo para o Brasil, com o juro cada vez mais baixo e com as reformas já feitas até aqui, na agenda endereçada pelo governo. “Mas existem muitas incertezas quanto à guerra comercial e as crises na América Latina. Tudo isso leva o investidor a se refugiar no dólar. Isso não tem um limite para acabar”, afirma. “Para as ações, eu ainda acredito que as baixas representam oportunidade de compra, porque não mudou a visão sobre os fundamentos das empresas e do país.”
O avanço do dólar no Brasil na semana passada não tirou também o otimismo do Morgan Stanley sobre a perspectiva da moeda brasileira. O banco americano acredita que o real irá se beneficiar da retomada no ano que vem e da perspectiva de um Banco Central (BC) menos propenso a estímulos monetários – se diminui a percepção para novos cortes de juros, cresce a atratividade da renda fixa e, consequentemente, fluxo cambial.
“Embora não seja um favorito sem ressalvas, o Brasil se destaca em base relativa devido a uma narrativa idiossincrática bastante atraente, excesso de prêmio no curto prazo e altas taxas de juro real na comparação com outros países da região”, disse o banco, em relatório a clientes.