Produção de celulose cai e preço inicia reação
Fonte: Valor Econômico (18 de novembro de 2019)

Os cortes na produção de celulose de fibra curta colocados em marcha por grandes nomes do setor e o retorno dos chineses às compras começaram a fazer preço no mercado global. Na semana passada, a tonelada da matéria-prima vendida na China finalmente voltou a subir e os rumores de que produtores asiáticos se preparavam para buscar reajustes começaram a se confirmar. Contudo, para executivos da indústria e analistas, não se deve esperar por uma recuperação imediata ou acentuada das cotações.
Para o diretor comercial e de relações com investidores da Eldorado Brasil, Rodrigo Libaber, a melhora mais efetiva dos preços não deve vir antes do fim do primeiro trimestre ou início do segundo trimestre, ou do feriado prolongado de Ano Novo na China. No terceiro trimestre, a empresa vendeu mais celulose do que produziu, o que vai se repetindo neste trimestre. “Estamos no ponto de inflexão. A demanda começou a voltar e hoje temos mais pedidos do que podemos absorver”, disse o executivo. “Mas não dá para dizer que, a partir de agora, o preço vai melhorar”.
Na semana passada, segundo a consultoria Foex, o preço líquido da fibra curta na China subiu cerca de US$ 1 por tonelada, para US$ 459,70. Ainda assim, desde agosto do ano passado, a desvalorização desse tipo de celulose supera os US$ 300 por tonelada e, no topo das expectativas, a previsão é de recuperação de US$ 200 por tonelada até o fim de 2020.
Para o analista Thiago Lofiego, do Bradesco BBI, é improvável que uma retomada de US$ 200 por tonelada, refletida no movimento recente de valorização das ações da Suzano, vá se materializar. “Embora acreditemos que os preços podem já ter atingido o fundo do poço a US$450 por tonelada, acreditamos que o processo de recuperação será bastante gradual”, escreveu, em relatório de 5 de novembro.
Para o analista, os estoques em excesso dos produtores ainda está em torno de 1 milhão de toneladas, enquanto a Suzano tem rodado suas operações com ritmo de 2 milhões de toneladas inferior ao normal. Isso implica um excesso de oferta entre 2020 e 2021 que não pode ser desconsiderado, observou. O Bradesco BBI projeta preço líquido médio da fibra curta de US$ 500 por tonelada na China em 2020.
Um dos principais motores da provável reversão na curva de preços neste momento foi o menor nível de produção, especialmente na Suzano. Maior produtora mundial de celulose de eucalipto, a companhia brasileira tinha em mãos no início do ano a maior parte dos estoques disponíveis no sistema – um total de 3 milhões de toneladas, frente ao nível normalizado de 1,5 milhão de toneladas. Para reduzi-los, reduziu o ritmo de produção de fibra e passou a vender o volume em estoque a preços de mercado. Como resultado, eliminou 450 mil toneladas que estavam em estoque em um único trimestre.
Em teleconferência para comentar os resultados do terceiro trimestre, o diretor de comercial celulose da Suzano, Carlos Aníbal, disse que o nível dos inventários da companhia segue em queda no quarto trimestre e, em outubro, os volumes estavam zerados em ao menos dois portos chineses. “Vamos manter nossa estratégia comercial de ajuste dos preços às condições de mercado”, afirmou.
Para os analista Leonardo Correa, do BTG Pactual, depois da forte desestocagem no terceiro trimestre e da continuidade dessa trajetória no trimestre em curso, a Suzano pode chegar a meados de 2020 com estoques normalizados. “Não esperamos uma abordagem predatória da Suzano no próximo ano: ainda vai gerenciar cuidadosamente a produção, o que vai implicar baixas taxas de operação por alguns anos”, escreveu, em relatório de terça-feira, acrescentando que os preços já estão perto do piso e a expectativa é de recuperação gradual ao longo de 2020.
Os números do “Pulp and Paper Products Council” (PPPC), que cobrem 80% da capacidade instalada mundial de celulose de mercado, confirmam o impacto da estratégia adotada pela Suzano. Entre junho e setembro, os estoques globais de fibra curta caíram o equivalente a 12 dias, de 64 dias para 52 dias. O nível, porém, ainda está distante do intervalo considerado saudável para a indústria, que vai de 37 dias a 45 dias para esse tipo de celulose.
A decisão da Suzano também afetou a produção e as exportações brasileiras de celulose como um todo. De acordo com dados estatísticos da Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), que reúne os produtores de celulose, papel, painéis e pisos de madeira e florestas no país, o volume de fibra produzido no país recuou 9,1% em setembro, na comparação anual, para 1,632 milhão de toneladas. De janeiro a setembro, a queda chegou a 5,1%, para 15,016 milhões de toneladas.
As exportações da matéria-prima, por sua vez, caíram 9,5% em setembro, a 1,028 milhão de toneladas, segundo a entidade. Diante disso, em nove meses, houve retração de 0,4% nos embarques, a 10,986 milhões de toneladas.