China reluta em assinar acordo comercial sem que EUA suspendam tarifas em vigor
Fonte: Valor Econômico (07 de novembro de 2019)
Pequim dobrou as apostas em exigências que ameaçam adiar o acordo comercial preliminar com os Estados Unidos, após um mês bem-sucedido de eventos políticos de alto nível na China, que fortaleceram a determinação do governo.
O desfile militar realizado em 1º de outubro, comemorando o 70º aniversário da República Popular, terminou sem problemas. Na semana passada, o Partido Comunista da China encerrou a quarta sessão plenária do atual Comitê Central sem incidentes.
Esses resultados encorajaram Pequim a insistir que os EUA retirem todas as tarifas cobradas desde o verão do ano passado antes de assinar o acordo comercial. Enquanto isso, o presidente americano, Donald Trump, espera assinar a primeira fase do acordo ainda neste mês, criando uma situação propícia para reacender as tensões.
Washington está preparado para deixar de lado questões estruturais, concentrando-se em medidas específicas para que a China expanda as importações americanas. Tal resultado seria crucial para reduzir o déficit comercial dos EUA com a China, que alcançou US$ 420 bilhões no ano passado.
Os dois lados estão finalizando um acordo no qual a China importará dos EUA gás natural liquefeito, bem como soja e outros produtos agrícolas, explicou na terça-feira o secretário de Comércio dos EUA, Wilbur Ross. O acordo ajudaria a reduzir as tensões e a restabelecer a confiança entre os EUA e a China, segundo Ross, que havia participado da cúpula da Associação das Nações do Sudeste Asiático na Tailândia, em Bangcoc.
As negociações sobre serviços financeiros e câmbio estão praticamente concluídas, disse uma autoridade da Casa Branca. No entanto, questões importantes, como a proteção dos direitos de propriedade intelectual, continuam pendentes.
Devido às tarifas de retaliação da China, os produtos agrícolas americanos exportados para lá caíram para cerca de US$ 9 bilhões em 2018. Diante deste quadro, Trump pressiona a China a comprar até US$ 50 bilhões em produtos agrícolas anualmente nos próximos dois anos.
Pequim chamou essas metas de irreais. Acredita-se que os negociadores chineses propuseram levar as importações agrícolas de volta à faixa de US$ 20 bilhões, a escala vista antes da guerra comercial.
Pré-requisito
A China sinalizou uma postura segura de si nas últimas semanas. O Diário do Povo, veículo porta-voz do Partido Comunista, publicou um artigo declarando que resolver tais preocupações, como as tarifas, é o pré-requisito para um acordo comercial.
O maior ponto de discórdia é a retirada completa das tarifas impostas pelos EUA. Desde o verão de 2018, a Casa Branca aplicou impostos de até 25% em cerca de US $ 360 bilhões em importações chinesas.
A questão central continua sendo até onde os EUA manterão esta postura. O Financial Times informou na terça-feira que os funcionários do governo Trump estão considerando uma reversão parcial da tarifa de 15% aplicada a US$ 112 bilhões em importações chinesas em 1º de setembro. Há também uma chance de a China evitar impostos de US$ 156 bilhões em produtos de consumo, como smartphones, que entrariam em vigor em dezembro.
Pequim ainda enfrenta grandes obstáculos em sua tentativa de eliminar todas as tarifas punitivas. O representante comercial dos EUA, Robert Lighthizer, alertou para o risco de a China voltar atrás em suas promessas assim que as tarifas forem retiradas.
Como impeditivo, os EUA buscam uma medida que restabeleça as tarifas caso a China volte atrás em relação aos compromissos. Pequim, que insistiu em um acordo justo e igualitário, aparentemente rejeitou uma abordagem tão unilateral.
Os dois lados também estão discutindo onde assinar o acordo comercial inicial. Trump quer realizar a cerimônia de assinatura nos EUA e sugeriu o Estado de Iowa, campo de sua batalha eleitoral. A ideia seria reunir apoio de sua base entre os agricultores, especialmente num momento em que o mandatário americano enfrenta uma investigação que pode resultar em impeachment.
Se o presidente chinês Xi Jinping viajar para os EUA, entretanto, ele corre o risco de ter uma surpresa indesejada de última hora e em território americano. Esse cenário causaria grandes danos ao capital político construído nas últimas semanas.
