Soja sobe em Chicago, mas segue pressionada

Fonte: Valor Econômico (01 de novembro de 2019)

O aumento das exportações dos Estados Unidos, inclusive para a China, e os sinais de que um acordo entre Washington e Pequim para encerrar as disputas comerciais entre as duas potências estava mais próximo, levou o valor médio dos contratos futuros de segunda posição de entrega da soja a alcançar, em outubro, o maior patamar desde maio do ano passado na bolsa de Chicago.
 

 
Cálculos do Valor Data mostram que, em relação à média de setembro, a alta foi de cerca de 5,5%. Na comparação com novembro do ano passado, o avanço superou 7%. Mas, embora os fundos especulativos que atuam nesse mercado tenham elevado do grão na semana encerrada no dia 22, como mostrou o relatório da Comissão de Negociação de Futuros de Commodities (CFTC), os ganhos poderão escorrer pelo ralo se as cenas dos próximos capítulos da novela sino-americana não se confirmarem.
E segundo Carsten Fritsch, analista do Commerzbank, o problema nem é tanto o cancelamento do encontro da cúpula da Cooperação Econômica da Ásia e do Pacífico (Apec) no Chile, da Ásia e do Pacífico (Apec) no Chile, em virtude das turbulências no país sul-americano. “O verdadeiro obstáculo é a demanda do presidente Donald Trump de que a China compre até US$ 50 bilhões em produtos agrícolas dos EUA, como parte um do acordo comercial”, disse ele em relatório.
 
Isso porque o montante desejado é duas vezes maior do que o total que os chineses vinham importando antes do início da disputas, em meados do ano passado. “Nessa escala, as compras excederiam a demanda real da China e causariam um excesso considerável de oferta no mercado interno do país asiático. Assim, os preços e a renda da população rural cairiam na China”, afirmou Fritsch, lembrando que Pequim tem tentado evitar mais migrações do campo para as cidades.
 
Nesse contexto, as 1,7 milhão de toneladas de soja exportadas pelos EUA na semana até 24 de outubro logo poderá perder seu efeito reanimador. O volume foi 30,7% milhões de toneladas o total embarcado pelo país nesta safra 2019/20, 9,5% mais que em igual período do ciclo 2018/19. Na mesma semana, o saldo líquido negociado para entrega futura se aproximou de 1 milhão de toneladas, o que também serviu como um “desfibrilador” em Chicago, mas o otimismo quanto à manutenção desse ritmo hoje é menor, o que pode beneficiar o Brasil – maior exportador global de soja, à frente dos Estados Unidos.
 
No caso do milho, que têm nos EUA e no Brasil os maiores exportadores, nessa ordem, os preços até subiram mais em outubro, mas foi apenas uma recuperação parcial dos tombos dos meses anteriores. Segundo o Valor Data, a média dos contratos futuros de segunda posição entrega do cereal foi mais de 7% superior à de setembro em Chicago, e ante outubro de 2018 o avanço foi de quase 5,5%. Mas as apostas dos fundos especulativos na queda de preços já cresceram na semana encerrada no último dia 24.
 
Com o mercado mundial bem abastecido com a recuperação da colheita brasileira na safrinha do ciclo 2018/19 e os embarque americanos até agora em queda neste ciclo 2019/20, as atenções dos traders voltaram-se para as políticas americanas de incentivo aos biocombustíveis. Mas as incertezas sobre os reflexos das propostas da Agência de Proteção Ambiental (EPA) sobre a demanda doméstica por etanol de milho alimentaram um sentimento pessimista que ainda poderá provocar novas quedas de preços.
 
Na bolsa de Nova York, o destaque de outubro foi a alta do algodão – superior a 6% em relação à média de setembro, embora para um nível 18,3% mais baixo que o de outubro de 2018. Em tempos de ampla produção mundial – inclusive do Brasil, segundo maior exportador da pluma -, a brecha para a reação veio da redução dos estoques da Índia, outro player de peso no mercado. Mas não há muito espaço para a continuidade da escalada, uma vez que a demanda não tem feito face à oferta robusta.
 
O açúcar também subiu em Nova York em outubro, embalado por uma falta de chuvas no Centro-Sul do Brasil que já começou a ser amenizada, enquanto café e suco de laranja registraram leves retrações. Em geral, os preços desses três produtos, cujos embarques mundiais são encabeçados pelo Brasil, continuam em nível considerado retraído. O que, como nos casos da soja, do milho e do algodão, amplifica os reflexos positivos do câmbio sobre a rentabilidade dos exportadores. (Colaborou Fernando Lopes)
 
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