Companhias se preparam para a nova lei de proteção de dados

Fonte: Valor Econômico (07 de outubro de 2019)

Na Serasa Experian, a diretora de dados Leila Martins diz que a preocupação com informações cresceu nos últimos 3 anos — Foto: Ana Paula Paiva/Valor


Líderes de departamentos como recursos humanos, jurídico e tecnologia de grandes empresas estão trabalhando mais desde o ano passado. Por causa da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), que entra em vigor em agosto de 2020, eles correm para adequar as equipes às mudanças em processos internos e de gestão de documentos. As atividades envolvem a organização de cursos e provas obrigatórias sobre a legislação, contratação de consultorias que orientam como cumprir a norma e a abertura de novas posições.
 
A LGPD, sancionada no governo Michel Temer, regula como as companhias devem tratar os dados pessoais que coletam de clientes e fornecedores. Na prática, proíbe o uso indiscriminado e o compartilhamento, com outras organizações, sem a autorização dos titulares, de informações como nome completo, CPF e RG. Quem não seguir as exigências pode ser multado em até R$ 50 milhões.
 
Desde o ano passado, as chefias buscam entender melhor a lei e saber o que fazer para se ajustar, diz Caio Arnaes, gerente sênior de recrutamento da consultoria de recursos humanos Robert Half. “Sentimos um efeito real no mercado de trabalho em meados do primeiro semestre de 2019.” De acordo com levantamento da Robert Half, 34% das empresas não estão preparadas para a LGPD e 19% nem conhecem o teor da regra. De um total de 387 recrutadores ouvidos em julho, 14% planejam contratar profissionais por causa da novidade – 47% devem ser funcionários efetivos e 53% convocados por projeto.
 
Outra pesquisa da consultoria, feita com 108 CIOs, indica que a aplicação da lei deve abrir vagas permanentes principalmente na área de tecnologia. Mais de 90% dos líderes têm a intenção de admitir analistas de negócios, função citada por 54% dos entrevistados, além de encarregados de proteção de dados (42%) e gestores de projetos (40%). “A chegada da legislação vai manter o mercado aquecido. As chefias precisarão de braço para implantar processos e cumprir o previsto”, diz.
 
Na Serasa Experian, a preocupação com o tratamento oferecido às informações dos clientes aumentou há três anos e abriu um novo posto no topo do organograma. “Criamos o cargo de chief data office [CDO ou diretor de dados, da sigla em inglês]”, afirma Leila Martins, diretora de operação de dados.
 
O executivo escolhido, Rodrigo Sanchez, há nove anos na empresa e ex-líder da unidade de análise de risco de pessoas jurídicas, cuida da segurança e governança dos registros que circulam pela organização. Suas obrigações incluem o relacionamento com fontes externas de informação e o atendimento a critérios legais. “Hoje temos mais de 80 profissionais diretamente envolvidos na revisão dos requisitos da LGPD, representando todas as áreas da companhia”, diz Leila.
 
De acordo com a executiva, a busca por talentos para desenvolver projetos voltados à gerência de arquivos não para. Em um ano, a companhia aumentou em 16% o volume de contração de cientistas de dados e desenvolvedores. Nos últimos quatro anos, a quantidade desses funcionários mais do que dobrou no quadro, afirma. “Agora, são mais de 200 cientistas.
 
A dedicação ao tema não é gratuita. A Serasa Experian responde on-line e em tempo real a 6 milhões de consultas ao dia, auxiliando 500 mil clientes a tomar decisões de negócios. “Os dados são o nosso ‘core business’ e estamos inseridos em rotinas que precisam deles para a concessão, recuperação de créditos e no combate às fraudes”, explica. A empresa também segue normas de proteção em vigor nos mercados americano e inglês.
 
“A aplicação de novas regras em unidades internacionais da companhia foi importante para a equipe que conduz a LGPD aqui”, explica. No Brasil, foi acionada uma maior integração entre a diretoria jurídica, que interpreta a regulamentação; a área de compliance, supervisora do cumprimento; e o departamento de segurança da informação, responsável por preservar os dados de acessos não autorizados. As normas também aterrissaram nas mesas de 2,5 mil funcionários. “A adequação passa por todos.”
 
Em agosto, a Serasa Experian promoveu a “Semana LGPD”, evento de palestras para mais de 1,7 mil funcionários, com a presença do presidente José Luiz Rossi e do CDO, Rodrigo Sanchez. Também montou um canal de comunicação interno e desenvolveu atividades baseadas em recursos de “gameficação”, para promover testes de conhecimento. “Estamos elaborando um curso on-line obrigatório”, diz. “A meta é treinar de forma rápida e constante.”
 
Na operadora Vivo, com cerca de 100 milhões de clientes, a primeira ação voltada para a LGPD foi um benchmarking (comparação) com empresas nacionais e internacionais sobre a interpretação da lei e a condução de projetos nos escritórios.
 
“Separamos uma equipe de sete executivos para cuidar exclusivamente da matéria”, diz o vice-presidente jurídico Breno Oliveira. “Eles vão aprimorar procedimentos com a estruturação de uma nova área, responsável pela gestão de dados, que abrirá até oito vagas”, revela. Cerca de 1,5 mil funcionários já estão envolvidos na fase de adaptação à lei.
 
Disparada há mais de um ano, a operação na Vivo inclui até seis frentes de trabalho que cuidam de iniciativas como a revisão de contratos e o atendimento a clientes. Com mais de 32 mil funcionários no Brasil, a empresa montou campanhas de comunicação, com a discussão da LGPD em reuniões com CEO, vice-presidências e diretorias, envolvendo mais de 48 executivos.
 
A força-tarefa incluiu ainda treinamentos com mais de 930 gestores de contratos, 18 workshops presenciais e on-line com 380 gerentes, e sessões exclusivas com 120 dos maiores fornecedores da marca. O mutirão continua com interações na intranet e nos elevadores, disparos de e-mail e SMS, além da construção de um portal de conteúdo sobre o regulamento. “Contratamos uma consultoria externa para nos apoiar”, diz Oliveira.
 
Rodrigo Suzuki, diretor de segurança da informação da Logicalis, afirma que o advento da LGPD é sensível para a empresa porque carrega obrigações que afetam diretamente a maneira como os profissionais trabalham. A multinacional de soluções e serviços de tecnologia da informação (TI) tem 1,1 mil funcionários no Brasil. “Lidamos com muitos dados pessoais e é importante estar alerta ao armazenar e manusear as informações”, diz. Situações simples do dia a dia, como ter uma planilha com a data de aniversário dos funcionários para o envio de mensagens, bancos de currículos ou listas de presença em eventos, vão exigir um nível diferente de proteção e controle, detalha.
 
A Logicalis se posiciona para a mudança desde 2017, a fim de atender leis de proteção europeias. “Somos parte de um grupo com presença no exterior e foi necessário adotar alguns parâmetros ainda em 2018.” E, como as duas normas guardam semelhanças, o movimento deixou a companhia praticamente em conformidade com a LGPD local. Ao mesmo tempo, a etapa de acertos deslanchou uma série de treinamentos.
 
No Brasil, 100% dos profissionais foram capacitados, afirma Suzuki. Quando um novo funcionário é admitido, precisa fazer um curso on-line de cerca de 40 minutos. Todos os funcionários são solicitados a acompanhar as aulas a cada 12 meses ou quando uma nova versão aparece – duas edições já foram oferecidas. O conteúdo traz itens da política interna de privacidade e situações fictícias para que o empregado demonstre o que sabe sobre as novas práticas. No final, uma prova é realizada para checar o grau de entendimento.
 
Os trabalhos foram conduzidos pela área de segurança da informação, em cooperação com a divisão de proteção global da companhia, em Londres. No total, já são cerca de 6 mil empregados capacitados no mundo, afirma. “As organizações não deveriam olhar para a LGPD como um ajuste de compliance, mas uma oportunidade para revisitar processos e capacitar as equipes”.