Viagens de navios batem recorde no mercado brasileiro
Fonte: Valor Econômico (04 de maio de 2023)
Depois de sofrer com a pandemia, que provocou a suspensão da temporada de cruzeiros em diversos momentos desde 2020, o segmento voltou a crescer no Brasil. O cenário é amparado pela retomada do turismo em meio a uma economia ainda fraca. Isso favorece o setor uma vez que uma parte dos consumidores considera o navio uma opção mais barata pois inclui alimentação, transporte, hospedagem e entretenimento em um único lugar.
Na próxima temporada, que vai de outubro próximo a maio de 2024, o setor ofertará 840 mil leitos, aumento de 6% em relação à temporada atual (encerrada em 20 de abril) – a maior em número de turistas em 10 anos. Superou o recorde anterior de 2011, quando 805 mil embarcaram no país, segundo a Associação Brasileira de Cruzeiros Marítimos (Clia Brasil).
A projeção da Clia é que o negócio de cruzeiros deve gerar um impacto econômico de R$ 3,9 bilhões no país, de outubro deste ano a maio de 2024. Na temporada encerrada em abril deste ano foram R$ 3,6 bilhões. Esses valores consideram os investimentos das companhias marítimas e os gastos de turistas e tripulantes nas cidades visitadas pelos navios. A movimentação em 2021/2022, quando o país ainda passava por uma fase grave da pandemia, foi de cerca de R$ 1,5 bilhão, com queda de 33,2% em relação ao período 2019/2020, segundo dados da Clia e da Fundação Getúlio Vargas (FGV).
A falta de infraestrutura fez o Brasil perder muitos navios desde 2011, dizem executivos do setor
Mas há desafios como a falta de infraestrutura, que fez o país perder muitos navios desde 2011.
“A temporada passada foi muito importante e foi a primeira com embarques em Itajaí e Maceió”, diz o presidente da Clia, Marco Ferraz. Entre as novidades da próxima está a confirmação de Paranaguá (PR) como porto de embarque, além da possibilidade de estreia de destinos catarinenses, com escalas-teste em Penha e em São Francisco do Sul, além do trabalho de longo prazo para viabilizar outras cidades como Vitória (ES).
A temporada 2022/2023 foi a maior de todos os tempos da MSC Cruzeiros, diz Adrian Ursilli, diretor-geral da companhia no Brasil. Foram mais de 500 mil hóspedes embarcados, alta de 100% contra 2019/2020. A empresa trouxe ao país 7 navios, sendo 5 com embarques no Brasil.
Ursilli mostra otimismo com a próxima temporada no Brasil. “Teremos uma oferta de 210 mil cabines, 7% a mais do que a nossa oferta para a temporada 2022/2023”. Serão sete navios navegando pelo litoral da América do Sul. Pela primeira vez a empresa trará o MSC Grandiosa, maior da frota do grupo e que tem capacidade de mais de 6 mil hospedes.
O presidente-executivo da Costa Cruzeiros para América do Sul e Central, Dario Rustico, diz que a empresa na temporada encerrada neste mês realizou cerca de 60 roteiros a bordo de 3 navios – Costa Firenze, Costa Favolosa e Costa Fortuna. “A América do Sul foi disparado o maior mercado a se recuperar no último ano e a perspectiva para a próxima temporada é a melhor”, disse. A próxima temporada será mais longa, com quase seis meses, um teste que o setor tem feito para ver se o mercado local consegue abraçar períodos mais longos de demanda.
A retomada do setor também foi sentida pela R11, agência especializada em venda de cruzeiros. A empresa pretende fechar este ano com um valor geral de vendas de R$ 380 milhões, 10% maior do que 2019. “No acumulado até agora, o valor geral de vendas está 29% maior”, disse Ricardo Amaral, presidente da empresa.
A agência é representante exclusiva da Royal Caribbean no Brasil, mas a partir de agosto vai passar a operar também com venda de cruzeiros no mercado brasileiro e na América do Sul. “A gente vendia algo entre 70 e 80 mil passageiros por ano (antes da pandemia) de brasileiros fazendo cruzeiros no exterior”, disse. No ano passado foram 20 mil.
A empresa vai começar também a vender no mercado brasileiro cruzeiros fluviais na Europa, com foco na Alemanha, Áustria e França. “No Brasil pensamos em fazer, mas não está no foco agora”, disse, destacando oportunidade futura na região da Amazônia.
De olho em um outro mercado, o dos endinheirados que também buscam viagens, mas em um formato exclusivo, a MSC lançou em 2019 a Explora Journeys. Christopher Austin, diretor de vendas da empresa, contou ao Valor que a visão do projeto chegou da própria experiência dos fundadores nos seus iates privados. “Eles fizeram várias pesquisas e parcerias para entender o que esses clientes iriam querer em uma marca”, disse. O resultado apontou para um barco mais próximo de um iate – a primeira embarcação tem 461 suítes.
As vendas começaram em outubro de 2021 e a ideia é que os navios operem mais próximos do formato de um grande hotel de luxo, em que os hospedem podem embarcar e desembarcar sem a necessidade de itinerários fixos. A primeira viagem está prevista para começar em julho (antes era maio, mas foi postergada por causa de atrasos na entrega do navio). A primeira viagem está prevista para começar em julho (antes era maio, mas foi postergada por causa de atrasos na entrega do navio). A previsão a embarcação fique na costa brasileira no Carnaval de 2024, entre Rio e Salvador. Outras marcas de luxo também se aventuraram no setor, como a Four Seasons, com estreia prevista para 2025.
Mas Ferraz, da Clia, assim como executivos, lembraram que a infraestrutura no Brasil é ainda uma questão a ser melhorada, especialmente com novos terminais de passageiros e berços de atracação (pontos onde os navios ficam ancorados). Há obras de melhorias em andamento nos portos do Rio de Janeiro, de Ilhéus e de Salvador, embora em passos lentos.
A área de embarque em Santos (da Concais) abraçava em 2019 cerca de 60% dos cruzeiristas do país. “O porto de Santos a gente tem uma disputa muito grande hoje com carga. Naturalmente estamos sendo espremidos”, disse.
Há um projeto sendo estruturado pela Concais para levar a área de embarque para próximo do centro histórico (Valongo). A Concais chegou a apresentar uma versão inicial para o projeto na casa de R$ 1,5 bilhão.