Recessão ameaça exportação de suco de laranja
Fonte: Valor Econômico (20 de julho de 2022)
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Se na safra 2021/22 problemas relacionados à oferta limitaram as exportações brasileiras de suco de laranja, na temporada 2022/23, que começou em julho, é a demanda que poderá restringir a recuperação esperada pelas grandes indústrias que atuam no país, que preveem aumento de produção e estoques.
Segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) compilados pela CitrusBR, entidade que representa Citrosuco, Cutrale e Louis Dreyfus Company, as maiores empresas do segmento, em 2021/22, os embarques totais somaram 1,074 milhão de toneladas equivalentes ao produto concentrado e congelado (FCOJ) e renderam US$ 1,622 bilhão, com aumentos de 5,3% e 7% em relação ao ciclo anterior, respectivamente.
Graças à elevação de preços observada durante a maior parte da safra, a elevação da receita já era esperado pelo mercado. O crescimento do volume de vendas, no entanto, causou alguma surpresa, já que até abril os balanços parciais da CitrusBR indicavam queda. Em boa medida, essa redução deveu-se à diminuição da oferta provocada pela quebra da produção de laranja no cinturão citrícola que se espalha por São Paulo e Minas Gerais.
Segundo o Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus), mantido por produtores de laranja e indústrias, a colheita na região somou 263 milhões de caixas de 40,8 quilos em 2021/22, 10,6% menos que em 2020/21. Essa queda limitou a produção de suco e derrubou os estoques das indústrias para menos de 130 mil toneladas no fim de junho, os mais magros em cinco anos.
A expectativa das empresas, agora, é que a tendência de recuperação dos embarques, que começou a ganhar força em maio, se aprofunde em 2022/23 com a perspectiva de aumento da oferta da fruta e seus reflexos positivos sobre produção e estoques de suco. De acordo com o Fundecitrus, a colheita em São Paulo e Minas deverá crescer 20,5% e se aproximar de 317 milhões de caixas, 1,1% mais que a média dos últimos dez anos.
“Os embarques deverão seguir fortes nos primeiros seis meses desta nova temporada”, afirma Ibiapaba Netto, diretor-executivo da CitrusBR. Ele ressalva, entretanto, que grande parte desse crescimento servirá para a recomposição de estoques no exterior – das indústrias e, eventualmente, de distribuidoras da bebida -, e não por causa de um aquecimento da demanda.
“Não podemos esquecer que, muitas vezes, exportação não é venda. Ainda é preciso um pouco de paciência para termos uma ideia mais precisa sobre o comportamento da demanda”, diz Netto. E é aqui que mora o perigo, já que nas últimas semanas o quadro de inflação e recessão que ronda a Europa e os Estados Unidos amplificou as incertezas e reduziu preços em todos os mercados de commodities agrícolas consideradas “menos essenciais”, como algodão, cacau e café – além do suco.
Na bolsa de Nova York, que reflete principalmente o quadro de oferta e demanda dos EUA, onde a produção de laranja sofre com a doença conhecida como greening, os contratos de segunda posição de entrega do FCOJ já acumulam queda de 13% neste mês, embora em relação ao mesmo período do ano passado a alta ainda seja de 15%.
“Apesar do panorama de baixos estoques em 2023, mesmo com recuperação da safra brasileira, do lado da demanda o cenário não é favorável, dado o alto nível de inflação na Europa e EUA e o risco de recessão, o que pode intensificar a tendência de queda do consumo”, avaliou a Consultoria Agro do Itaú BBA no relatório “Visão Agro 2022/23”, que foi divulgado na semana passada.
Europa e EUA são os principais destinos das exportações brasileiras de suco. Para o mercado europeu, o volume já caiu 5,6% em 2021/22, para 614,2 mil toneladas, embora, com a alta de preços, a receita tenha subido 5,9%, para US$ 1,038 bilhão. Para os EUA, volume e receita subiram, respectivamente, 1,2%, para 200,6 mil toneladas, e 22%, para US$ 362,5 milhões, em virtude dos problemas com a oferta local.