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Como o Brasil se prepara para o desafio da logística no agronegócio?


Fonte: EXAME (8 de abril de 2022 )
Aumento da produção agrícola exige ampliação da infraestrutura do setor. Especialistas comentam o assunto no evento Exame SuperAgro – Foto: Exame/Divulgação

 

O aumento da produção agrícola gera uma grande preocupação no agronegócio: se a infraestrutura do setor vai acompanhar esse processo. O desafio está colocado e não será resolvido no curto prazo, mas, segundo especialistas, o Brasil está no caminho certo. O assunto foi discutido no painel “Logística e armazenagem do agro”, do evento SuperAgro da EXAME, nesta quinta-feira, 7.

 

“O crescimento do agronegócio brasileiro é e será pujante. Não é uma aposta, é uma realidade concreta”, disse o vice-presidente comercial da Rumo, Pedro Palma. “Precisará, sim, de mais infraestrutura para absorver esse crescimento, principalmente que o Centro-Oeste brasileiro vai trazer de volume adicional ao sistema”, acrescentou.

 

Avanços na infraestrutura, entretanto, são fruto de processos longos e de muito investimento, inclusive do governo. “Não é uma agenda que vamos resolver em questão de meses”, pontuou o presidente da Inter. B, Cláudio R. Frischtak. Nos próximos 10 a 15 anos, ele vê um “desafio enorme” decorrente do aumento da produção agrícola.

 

O Brasil, segundo Frischtak, vai dobrar a safra nesse período. “Vamos nos tornar o maior produtor do mundo de grãos. Isso é uma coisa espetacular, maravilhosa”, citou, acrescentando que a Rumo e outras empresas “vão ter que dar conta” do novo cenário. “Mas vamos ter que saber de onde vão vir os recursos”, afirmou.

 

Será preciso “captar de fora e mobilizar de dentro”, disse o presidente da Inter. B — uma agenda de médio e longo prazo. Ele espera consistência nas regras, independentemente do governo que estiver no poder. “Faço um apelo: não sabemos qual vai ser o próximo governo, mas que o PPI seja mantido e que essa agenda seja perseguida”, disse.

 

Veja o painel completo abaixo:

 

Mais investimentos

A secretária especial da Secretaria do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI) do Ministério da Economia, Martha Seillier, ressaltou no evento que o programa foi criado em 2016 diante da percepção de que os grandes investimentos, especialmente em logística, só decolariam se houvesse uma agenda “muito séria e comprometida” de atração de investimentos privados.

 

Seillier reconheceu que o país tem carência de investimentos em infraestrutura em diversos setores, além de recursos muito limitados do ponto de vista do Orçamento público. “O PPI surge nesse contexto de realismo fiscal, sem abrir mão da necessidade de suprir esse gap de infraestrutura”, disse.

 

Segundo a secretária, o programa tem rendido “frutos muito relevantes”, como os leilões de infraestrutura realizados recentemente. Ela mencionou, por exemplo, o leilão da Companhia Docas do Espírito Santo (Codesa), primeira privatização portuária do país, na semana passada.

 

A agenda do setor portuário, segundo Seillier, segue forte, com a previsão da privatização, ainda este ano, do Porto de Itajaí e do Porto de Santos, maior porto da América Latina, que já teve consulta pública realizada. Também há estudos em curso sobre a privatização da Companhia Docas do Estado da Bahia (Codeba).

 

Frischtak considera o PPI uma “excelente inovação institucional”, mas lembra que, para modernizar a infraestrutura do setor, seria preciso um investimento de 170 bilhões de reais por ano. O desafio é atrair mais capital e expandir investimentos, reforçou. Uma meta que o país deve perseguir, na opinião dele, é a entrada na OCDE.

 

“Traria uma série de implicações que geram melhoria no nosso ambiente de negócio”, acredita. O presidente da Inter. B, reconhece que não é algo simples, mas defende que o assunto continue a ser tratado no próximo governo. “Vai facilitar muito a melhorar nossa classificação de risco e eventualmente migrar para o investment grade“, afirmou.

 

Palma, da Rumo, considera que o novo marco regulatório do setor é um ponto positivo para que o país consiga superar os desafios colocados. “Não adianta acharmos que, em um país como o Brasil, com tantas carências em tantos setores, o governo vai conseguir sozinho executar obras e fechar o gap de investimentos em infraestrutura”, afirmou.

 

O marco regulatório facilita a proposição de projetos e traz mais possibilidades para o setor, segundo Palma. “Abre um leque enorme para que toda e qualquer companhia consiga enxergar localmente quais são suas oportunidades de negócio, que talvez não estivessem dentro do radar do sistema governamental até então. Isso atrai mais competição”, disse.

 

Mudança de cenário

Palma aponta que já são observados avanços. Ele lembrou que, entre 5 e 10 anos atrás, era comum ver filas grandes de caminhões em portos nos períodos de pico de safra. Eram “gargalos imensos”, segundo ele, que em alguns casos paralisavam ruas inteiras em cidades como Santos, por exemplo. Isso já mudou nos últimos anos.

 

“Hoje, no pico de escoamento da safra de soja em Mato Grosso ou Goiás, em momentos super fortes de escoamento, não se vê ninguém falando de problema logístico, de algum gargalo no porto”, disse. Isso é resultado, segundo Palma, de processos que vêm melhorando ao longo do tempo e precisam ser acelerados. “A gente vem nesse caminho de evolução”, afirmou.

 

Palma citou a ferrovia Norte-Sul, que foi concedida em meados de 2019. Em janeiro de 2021, foi colocado o primeiro terminal em operação. Em maio, o segundo. “Isso faz com que boa parte dos caminhões que saem de Goiás entrem no nosso terminal de transbordo e cheguem de trem em Santos. São investimentos que vêm trazendo resultado já hoje, mas é preciso efetivamente avançar com essa agenda”, disse.


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