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Commodities aproveitam preço e são 70% da exportação


Fonte: Valor Econômico (13 de outubro de 2021 )
Venda está cada vez mais concentrada em minério de ferro, soja e petróleo – Imagem: Valor Econômico

 

 

A alta de preços resultante dos vários choques da pandemia contribuiu para as commodities avançarem como nunca nos embarques brasileiros. De janeiro a setembro deste ano, elas chegaram a uma marca histórica para o período, de 69,7% do valor total exportado. Em iguais meses de 2020, foram 67,5%. O nível deste ano está quase dez pontos percentuais acima do de 2019, de 60,6%, patamar em torno do qual a fatia orbitou por praticamente dez anos, sempre considerando os mesmos nove meses.

 

Os dados antecipados para o Valor são do Indicador de Comércio Exterior (Icomex), levantados pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) com base em dados oficiais. O boletim do Icomex com mais detalhes será divulgado no dia 18.

 

Para além do cenário conjuntural, dados do Icomex mostram que, no decorrer das últimas duas décadas, houve concentração da exportação em cada vez menos produtos e um processo de primarização no qual bens destinados ao exterior têm cada vez menor valor agregado, mesmo entre commodities. A pandemia acelerou os fenômenos, evidenciando a necessidade de debater mudanças estruturais, apontam analistas, a despeito dos atuais superávits comerciais robustos que ajudam a tranquilizar as contas do setor externo.

 

Lia Valls, pesquisadora associada do FGV Ibre, diz que novas mudanças estruturais a partir do pós-pandemia tornam incerto o quanto do atual avanço das commodities permanecerá, mas é pouco provável que a fatia fique abaixo dos 60% das exportações no médio prazo.

 

Dados do Icomex mostram que, apesar da aceleração recente, o avanço das commodities na exportação aconteceu de forma consistente. Em 2001, eles correspondiam a 37,4% dos embarques de janeiro a setembro. Em 2009, a fatia chegou a 54,5% da pauta, em um ano em que houve retração do comércio internacional e as exportações brasileiras totais caíram, mas embarques como de minério de ferro e de soja sofreram menos, embalados pela demanda de uma economia chinesa que decresceu menos que a média mundial. Em 2021, o fenômeno é outro. As exportações totais crescem, mas embarques de commodities aumentam de forma mais acelerada. São os preços que dão o ritmo de alta. De janeiro a setembro, os preços médios de exportação subiram 30,6%. O volume aumentou 4,1%.

 

Welber Barral, estrategista de comércio exterior da Ourinvest, diz que há no avanço um fator conjuntural dado pelos preços de commodities, que, mesmo em processo de ajuste, devem continuar altos. “Há inflação no mundo todo, com custos maiores de energia, gás e fretes, além de eventuais efeitos da variante delta, que devem manter pressão sobre prepreços.” Para ele, esses fatores estarão ainda presentes no decorrer de 2022.

 

Há também uma questão estrutural, diz, de perda de diversificação e de primarização da pauta exportadora, com concentração em produtos cada vez mais básicos. Os semimanufaturados perderam espaço nos embarques, aponta, referindo-se a produtos como ferro-gusa, suco de laranja e açúcar, que partem de matérias-primas básicas, com alguma industrialização. Isso, segundo ele, vem junto com a perda de fatia da indústria na economia, afetada por problemas de competitividade, como questões logísticas e tributárias.

 

Ainda de acordo com o Icomex, a participação de produtos da indústria de transformação na exportação de commodities caiu de 36,9% de janeiro a setembro de 2020 para 32,8% em iguais meses deste ano. Isso mostra que há primarização da pauta exportadora como um todo, com avanço dos básicos, também dentro das commodities, diz Lia, responsável pela elaboração do boletim do Icomex. O fenômeno também é visível ao longo dos últimos 20 anos. Em 2017, a fatia era de 40,9%. Em 2008, de 51,1% e, em 2001, de 60,4%, sempre de janeiro a setembro.

 

A concentração em poucos bens é clara quando se olham os dados de minério de ferro, soja e petróleo, os principais itens embarcados pelo Brasil. O trio de produtos subiu de 38,3% para 43,7% da exportação total do país de 2020 para este ano, atingindo um nível recorde para o período de janeiro a setembro. Em 2013 esses bens correspondiam a 30,7% da pauta exportadora. Em 2001, a 11,9%, mantendo a comparação nos mesmos nove meses.

 

“São bens cujos preços não temos o menor controle”, diz José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior (AEB), indicando um dos fatores negativos da dependência maior de produtos commoditizados. No momento, exemplifica, há incerteza sobre os possíveis efeitos da crise da Evergrande, gigante chinesa da área imobiliária. O receio é de que o alto endividamento da empresa contamine os demais setores da economia do país asiático, comprometendo o crescimento e a demanda por produtos que o Brasil exporta. “E quantas Evergrandes existem na China?”, questiona ele, referindo-se a eventuais consequências das amplas transformações regulatórias no pais asiático. Para ele, o superávit comercial de 2020 e a expectativa de outro saldo robusto neste ano acabam desviando a atenção de um debate necessário sobre a mudança na composição da pauta exportadora.

 

“Parece haver uma ilusão de que os preços vão sempre subir ou ficar altos”, diz Castro. Para ele, seria preciso aproveitar a oportunidade do cenário atual para fazer reformas estruturais imprescindíveis para a atividade industrial e para a exportação de produtos com maior valor agregado.

 

Um ambiente competitivo é essencial para diversificar e agregar valor à exportação, diz Barral, que exemplifica com o alumínio. O ex-secretário de Comércio Exterior lembra relatos de que há cerca de 20 anos havia grande interesse no Brasil de fabricantes de alumínio. Parte importante dos investimentos, porém, não veio em razão de ambiente pouco competitivo, diz.

 

Com isso, avalia, perdeu-se a oportunidade de desenvolver uma indústria de processamento da bauxita, matéria-prima abundante no país, a partir da qual se poderia ganhar escala, produtividade e competitividade para exportação.

 

Exportar commodities agropecuárias e minerais é um trunfo do Brasil, garantindo saldos comerciais elevados. O risco é uma dependência excessiva desses produtos, além de não se aproveitar a oportunidade de diversificação nas próprias cadeias desses bens, por exemplo.


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