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Tarcísio prepara novo salto com ‘Infra Week’


Fonte: Valor Econômico (8 de março de 2021 )
Tarcísio: ministro fala praticamente todos os dias com o chefe e aparece na lista de cotados para vice na chapa de 2022 — Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

 

No já distante e pré-pandêmico março de 2019, quando Sergio Moro era uma das estrelas no primeiro escalão do novo governo e Paulo Guedes prometia reformas liberalizantes jamais vistas no país, um ministro pouco conhecido fora de sua área de atuação ganhou expressão nacional e saiu da periferia do poder batendo o martelo.

 

Naquele mês, o engenheiro Tarcísio Gomes de Freitas (Infraestrutura) fez o primeiro grande teste do ânimo de investidores com o governo Jair Bolsonaro: o leilão de 12 aeroportos, da Ferrovia Norte-Sul e de quatro terminais portuários. Ele saiu da B3, em São Paulo, com resultados maiúsculos: disputa acirrada pelos ativos, ágio de até 4.700%, quase R$ 8 bilhões no caixa do Tesouro. E uma conquista intangível: caiu nas graças do presidente, começou a ser retuitado frequentemente por seus filhos, virou mais um xodó da base bolsonarista na Esplanada dos Ministérios.

 

Agora, dois anos depois, Tarcísio se prepara para dar um novo salto. Entre 7 e 9 de abril, voltará diariamente à B3 para leiloar 28 concessões. Se tudo der certo, serão R$ 10 bilhões em investimentos privados. Estão na lista 22 aeroportos (incluindo Curitiba, Manaus e Goiânia), a Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol) na Bahia e cinco terminais portuários. A oferta de tantos ativos numa única semana recebeu um nome: “Infra Week”.

 

As circunstâncias, entretanto, são muito diferentes daqueles primeiros grandes leilões. Moro saiu do governo e correu para a oposição. Guedes deixou de ser o Posto Ipiranga e precisa enfrentar interferências do presidente na economia. A recessão global lança dúvidas sobre o interesse do mercado na próxima rodada de concessões.

 

 

E mudou o tamanho do próprio licitante: hoje Tarcísio fala praticamente todos os dias com o chefe, é figurinha carimbada nas lives semanais de Bolsonaro e seu nome aparece na lista de cotados para vice-presidente na chapa de 2022.

 

Bolsonaro sequer conhecia seu ministro da Infraestrutura, ex-capitão do Exército como ele, quando foi eleito. Sua pretensão era nomear o general Oswaldo Ferreira, que cuidava do assunto no núcleo da campanha formado no subsolo de um hotel em Brasília, sob comando de Augusto Heleno. Ferreira foi convidado, mas alegou problemas de saúde e declinou. Bolsonaro recebeu o currículo de Tarcísio, indicado por pessoas próximas, e o chamou para conversar.

 

“Quer dizer que você também é capitão?”, puxou assunto. “Já reparou que somos os mais falados? Não existe General Caverna, General América, mas tem Capitão Caverna e Capitão América”, brincou. “É verdade, mas tem também Capitão Gay, presidente”, respondeu Tarcísio, quebrando ainda mais o gelo, em referência ao personagem de Jô Soares. Ambos caíram na risada, entenderam-se no ato.

 

Hoje o ministro da Infraestrutura é celebrado pelo presidente. “Dizer a vocês do patriotismo desse capitão, da competência desse engenheiro. E da maneira como ele encara os desafios. Eu agradeço, e muito, por ele existir e por estar ao nosso lado em qualquer lugar do Brasil”, disse Bolsonaro, em uma solenidade recente na Bahia.

 

A fama o fez ter 777 mil seguidores no Twitter e perfis em outras redes sociais que exaltam sua capacidade de realização, como o “Tarcisão do Asfalto” no Instagram, mas também engendrou cobranças da base radical. Nos meios bolsonaristas, blogueiros pró-governo pedem posição mais firme do ministro na chamada “guerra ideológica”. Ele mantém distância.

 

Talvez por isso o clima entre seus próprios assessores fosse de estranhamento, na sexta-feira, com a performance de Tarcísio na live da véspera conduzida pelo presidente. Bolsonaro mostrou notícias sobre depressão e suicídios entre jovens durante a pandemia: “Pode sorrir, Tarcísio, pode sorrir, não tem problema”. Ele sorriu, foi duramente criticado por comentaristas políticos, acabou arrependido.

 

Ao assumir-se como “isentão”, o ministro alimenta um acordo tácito com o Palácio do Planalto para fazer girar um círculo virtuoso: ter absoluta liberdade de trabalho, sem nenhuma interferência política, para entregar muito; entregar muito para ter absoluta liberdade de trabalho, sem interferência política, o que só ameaçaria o ciclo.

 

“Os investidores têm que falar comigo e enxergar credibilidade”, costuma afirmar Tarcísio à sua equipe. “Como ministro, o que eu vendo não são só ativos de infraestrutura. Antes de qualquer coisa, eu preciso vender credibilidade.”

 

Essa credibilidade estará em jogo no dia 7, quando o governo leiloará 22 aeroportos divididos em três lotes regionais. Tarcísio prevê seis grupos disputando o Bloco Sul (liderado por Curitiba), quatro no Bloco Norte (Manaus como carro-chefe) e três no Bloco Central (com os terminais de Goiânia e São Luís à frente). Ele acredita na participação da alemã Fraport, da suíça Zurich, da argentina Inframérica, do fundo Pátria, do grupo CCR, possivelmente da Aéroports de Paris.

 

O desafio é repetir o sucesso das rodadas de concessões anteriores e em meio à pandemia, com recuperação incerta da demanda. O mercado, apesar de tudo, está otimista.

 

“Acredito que haverá propostas para todos os blocos, com um bom número de players, mas sem ágios muito elevados”, diz Marcelo Allain, consultor do BR Infra Group e coordenador do comitê de aeroportos da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib). Ele nota que a pandemia gera impactos para o fluxo de caixa no curto prazo, há incertezas sobre a velocidade da recuperação e sobre os efeitos de mudanças de hábitos em viagens corporativas, grandes operadores estrangeiros vivem dificuldades nos países de origem por causa da crise no setor.

 

“Por outro lado, existem pontos positivos: há poucas oportunidades no mercado mundial, o custo de capital diminuiu, as taxas de retorno são boas. Além disso, a demanda doméstica estava se recuperando bem antes da nova onda e a Anac agiu rapidamente no reequilíbrio econômico das concessões, o que recebeu elogios no exterior.”

 

No dia 8, vai a leilão um trecho de 537 quilômetros da Fiol, entre Ilhéus e Caetité. Mais de 75% das obras já foram executadas pela estatal Valec. A mineradora cazaque Eurasian Resources Group, que explora minério de ferro no interior da Bahia, desponta como maior interessada. Os chineses, que prometiam disputar a ferrovia, não deram mais sinais. No dia 9, serão os cinco arrendamentos portuários.

 

Em seu gabinete, Tarcísio tem as cópias de cada martelo batido na B3, com um “tamanho família” para o leilão da Norte-Sul, que ele considerou emblemático. A poucos passos dali, em outro canto, uma camisa do histórico Flamengo – seu time de coração – de 2019, com o autógrafo de jogadores e do técnico português Jorge Jesus. Parece um aviso de que, se os leilões derem certo e Tarcísio continuar em alta, é um ministro que vai, digamos assim, para “outro patamar”.


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