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Modelo híbrido é a tendência para o escritório pós-covid


Fonte: Valor Econômico (26 de fevereiro de 2021 )
Winandy, do Bmg: “Não queremos que voltar ao trabalho presencial seja um castigo. Temos de criar um ‘uau’ no ambiente” — Foto: Silvia Zamboni/Valor

 

O ritmo lento de vacinação da população brasileira contra a covid-19 prolongou dúvidas sobre o futuro dos espaços para escritórios comerciais e a vida nas grandes cidades. Mas, a opinião de especialistas e iniciativas de algumas empresas indicam que o modelo híbrido, de trabalho no escritório e em casa, em sistema de revezamento, é uma tendência que ganha cada vez mais força. Para urbanistas, porém, embora obscuro, o momento oferece aos governantes municipais a chance de revisar planos diretores e outros mecanismos capazes de reorientar a ocupação dos locais de trabalho e moradia.

 

O mercado imobiliário comercial está difuso em São Paulo, maior centro econômico do país. Em muitos escritórios, mesas e cadeiras vazias e computadores desligados testemunham uma história interrompida, mas que pode ser retomada a qualquer momento. Ainda que em escala bem menor, há também empresas com trabalho presencial, ao menos em algumas áreas. E algumas improvisam, à medida do possível, o revezamento entre casa e escritório.

 

Desde o ano passado, inquilinos com menos fôlego ou que mantêm atividades fortemente atingidas pelos efeitos da covid-19, como o turismo e profissionais liberais, devolveram espaços conforme perceberam que a pandemia não cedia. Na região da avenida Paulista e o Centro, edifícios inteiros estão desocupados.

 

No caso das empresas que ocupam escritórios de alto padrão, a maioria está em compasso de espera, na expectativa de que a vacinação avance. Nas multinacionais, orientações mais rígidas das matrizes recomendam cautela e trabalho em casa, por enquanto.

 

A pandemia acelerou tendências. Várias empresas já decidiram que, após a imunização, adotarão modelo híbrido de trabalho e se organizam para isso. Funcionários se revezarão para trabalhar parte da semana no escritório e parte em casa.

 

Para alguns, isso significa alugar áreas menores. O Bmg devolveu ao proprietário 33% do espaço ocupado pela sua sede, num edifício na Vila Nova Conceição. “A pandemia favoreceu a luta contra forças conservadoras que se opunham à ideia do ‘home office’”, diz o diretor de transformação organizacional, Alexandre Winandy.

 

Os 900 funcionários que trabalham na sede farão rodízio no uso de 368 estações de trabalho individuais e 80 outros espaços coletivos, que permitirão reuniões em pequenos grupos, conferências ou mesmo telefonemas individuais. O total da área será reduzido de 7,2 mil para 4,8 mil metros quadrados. As instalações passam por reforma, com previsão de o novo modelo começar a valer a partir de maio ou junho – a depender do curso da pandemia.

 

Pesquisa do banco mostrou que a maioria dos funcionários do Bmg prefere trabalhar em casa três dias por semana. A reserva dos espaços será feita por meio de um aplicativo. Winandy tem pela frente o desafio de organizar essa agenda. “Não dá para todo o mundo trabalhar na segunda-feira e folgar na sexta, por exemplo”, diz.

 

A Cushman & Wakefield, empresa de serviços imobiliários comerciais, já oferece aos clientes aplicativo para reserva de assentos pelos funcionários. Segundo Jadson Andrade, gerente de pesquisa de mercados, o programa possibilita limitar o número máximo de pessoas no escritório – em geral, a 25% do total -, com distância mínima de dois metros entre um funcionário e outro.

 

Pesquisa feita no ano passado pela Cushman apontou que 38% de 158 executivos entrevistados pretendiam adotar o modelo híbrido, com possibilidade de trabalho em casa um ou dois dias por semana. Nova sondagem será realizada em breve. Antunes prevê que a tendência se confirmará.

 

Para Giancarlo Nicastro, presidente da consultoria SiiLA (Sistema de Informação Imobiliária Latino-Americana), a proporção dos dias trabalhados em casa dependerá de cada setor. Os que precisam de mais interação, segundo ele, caminham para modelo de um a dois dias de “home office”. Aumento das áreas de reuniões e de convívio e redução do número de salas individuais são vistos como tendência.

 

Marina Cury, presidente da consultoria Newmark, também acredita no avanço do modelo híbrido com trabalho remoto dois dias por semana após a imunização. “Há uma luz no fim do túnel, que não existia um ano atrás, que é a vacina. Mas não se sabe quando haverá a vacinação em massa, atingindo a população de escritórios, com menos de 40 anos em sua maioria”, diz

 

Isso não significa, diz ela, que todas as empresas devolverão espaços, pois a necessidade de distanciamento pode levar ao aumento de demanda por áreas mesmo com o revezamento.

 

Para urbanistas, a perspectiva de mudanças do ambiente corporativo pode ser uma grande oportunidade para repensar o modo de vida nas grandes cidades. Philip Yang, fundador do Instituto de Urbanismo e Estudos para a Metrópole (Urbem), considera que deveria ser prioridade, para os legisladores, promover revisões de planos diretores e dos mecanismos que regulamentam os espaços nas metrópoles.

 

Se a tendência do “home office” se confirmar, diz Yang, será preciso rever convenções de condomínio e leis de zoneamento. Para ele, diante do imenso déficit habitacional do país, seria natural aproveitar espaços que deixarão de servir para o trabalho e transformá-los em moradia. “A criatividade é o que vai determinar”, ressalta.

 

Defensor de espaços que favoreçam a mistura de classes sociais e a aproximação das pessoas dos seus locais de trabalho, Yang lembra que São Paulo sofreu na era pós-industrial porque a legislação mostrou-se incapaz de acompanhar o ritmo do crescimento do setor de serviços. “As cidades que agora agirem mais rapidamente serão as mais pujantes”, destaca.

 

Mas o batalhão de pessoas que, há um ano, levou um choque quando informado que seria transferido para casa está preparado para a volta ao escritório, ainda que em número de dias menor?

 

“Não queremos que voltar ao trabalho (presencial) seja um castigo. Temos de criar um ‘uau’ no ambiente”, afirma Winandy. No caso do Bmg, isso significa, diz, “tirar a cara de banco” do escritório da instituição que no ano passado completou 90 anos. “Pensamos em grafitar paredes, desconstruir a ideia da baiazinha e ampliar área de interesse coletivo, como salas de amamentação.”

 

Nicastro, da SiiLA, aponta o desafio das questões trabalhistas, “que ainda não estão claras” em relação ao “home office”. Os benefícios para funcionários também tendem a mudar. Assim que os empregados do Bmg relataram a inutilidade do vale-transporte no trabalho remoto, o banco decidiu trocá-lo por vale-internet.

 

Felipe Góes, presidente da São Carlos Empreendimentos e Participações, proprietária de edifícios corporativos, conta que a empresa passou a ser procurada por inquilinos que precisam montar um plano de retorno ao trabalho. Segundo consultores, antes da pandemia, os escritórios eram desenhados para oferecer, em média, sete metros quadrados por pessoa. Com as novas regras sanitárias, a proporção deve dobrar.

 

Para quem está em dúvida se devolve ou não o imóvel, as multas previstas em contratos de locação podem pesar na decisão. Mas, no caso do Bmg, Winandy diz que o banco economizará com o trabalho híbrido mesmo pagando multas pela devolução da parte ocupada anteriormente.

 

Na contramão das devoluções, um caso que se tornou emblemático, desde o início da pandemia, foi o do Facebook. Em meados de 2020, a empresa assinou contrato de locação no B32, considerado o melhor prédio corporativo de São Paulo e localizado na Faria Lima, avenida nobre do segmento. A empresa de tecnologia alugou 11 dos 25 andares do B32, mas não devolveu o espaço que já ocupava no endereço anterior, o Infinity Tower, no Itaim Bibi.

 

Fintechs que cresceram durante a pandemia também têm aumentado a demanda por espaço. Com 58 funcionários no escritório de São Paulo, a A55, que fornece crédito para empresas de tecnologia, havia acabado de se mudar de um escritório pequeno na avenida Paulista, para três salas em edifício próximo à Faria Lima quando o surto de covid-19 começou. No fim de 2020, a empresa precisou alugar a quarta sala. Ficou com o andar todo.

 

Segundo André Wetter, presidente da A55, com escritórios também em Florianópolis, Manaus e México, se a maioria dos funcionários optar por ir ao escritório paulistano uma ou duas vezes por semana (mínimo fixado pela empresa para quando a vacinação estiver avançada), a área atual será suficiente, mas caso a preferência seja pelo trabalho na empresa, será necessário alugar mais alguma sala.

 

Existe, nas empresas, a preocupação de que o trabalho remoto prejudique a assimilação da cultura da companhia. Os funcionários com mais tempo de casa já absorveram valores, enquanto os mais jovens perdem com a falta de contato. Essa discussão começou em meados do ano passado. Durante um evento, nesta semana, Martín Jaco, presidente da BR Properties, proprietária de escritórios, disse que “é impossível” que as empresas existam de forma virtual”. “Como disseminar e fortalecer cultura sem estar próximo das pessoas?”

 

Valentina Caran, proprietária de uma tradicional imobiliária do setor comercial que leva seu nome, não percebe o mesmo entusiasmo entre seus clientes. Diz que nunca se deparou com crise igual em 40 anos de experiência no setor.

 

A empresária, que se tornou conhecida, principalmente na região central de São Paulo, por estampar sua fotografia nos cartazes de “vende-se” e “aluga-se”, vê seus clientes apontarem o “home office” como o grande vilão. Ela não entrou nessa onda. Comparece, diariamente, a seu escritório no icônico Conjunto Nacional, repleto de salas vazias. O local de trabalho de Valentina está cercado por imóveis que sua imobiliária oferece para locação. Alguns são prédios inteiros vazios. Somente na rua Bela Cintra, a uma quadra de seu escritório, há sete edifícios comerciais totalmente vagos.

 

“O brasileiro é cheio de esperança. Espera três, seis meses ou até todo o mundo tomar a vacina para tomar decisões”, destaca a empresária. Os clientes fazem pressão. “Você acha que a gente não quer alugar? Vivemos de comissão”, responde a eles. Muitos imóveis estão em negociação, segundo ela. Há quem ofereça desconto, prazo ou aceite não receber nada de aluguel. Na atual situação, basta o inquilino pagar condomínio e IPTU.

 

Foi o que fez o empreendedor Roberto Corrêa em parte de seus imóveis. Ele diz que a pandemia expôs como mudanças nos costumes se refletem no mercado. Em certas atividades – caso dos profissionais liberais que ocupavam pequenas salas – a troca do escritório pelo “home office” foi natural e, em alguns casos, irreversível.

 

Corrêa tinha, por exemplo uma sala de 50 metros quadrados alugada para uma empresa de ensino a distância que ali montou um belo estúdio. Há poucos dias, o inquilino devolveu o imóvel. Os professores habituaram-se a dar aulas em casa usando um simples celular. “Mas quem precisa de uma vitrine, caso de lojas ou empresas que buscam espaço mais sofisticado, continua à espera de dias melhores para voltar a alugar”, diz.

 

A pandemia traz a esperança de dias melhores também na mobilidade urbana. Com o “home office”, a redução dos deslocamentos permite, diz Yang, rever o sistema viário. Ampliar calçadas e estreitar vias para veículos, por exemplo. Quem trabalha em casa também percebe novas necessidades. Segundo ele, executivos se deram conta que, por mais confortáveis que sejam suas moradias, não comportam crianças que estudam no mesmo espaço em que pais trabalham. O que caracteriza um mercado bem-sucedido é a capacidade de adaptação”, afirma Yang.


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