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“Coronavírus veio para ficar”, diz virologista da Fiocruz


Fonte: Valor Econômico (3 de fevereiro de 2021 )
Marilda Siqueira, virologista da Fiocruz: “As pessoas têm que buscar a informação na ciência, não no achismo” — Foto: Josue Damacena

 

O novo coronavírus (Sars-Cov-2) veio para ficar e sua permanência e gravidade vão depender da eficácia das vacinas e do comportamento das mutações dos vírus. Só que o ritmo ainda lento da vacinação e as contínuas aglomerações da população brasileira comprometem o controle do vírus e dão espaço para alterações que possam afetar a eficácia das vacinas no futuro. A avaliação é da virologista Marilda Siqueira, chefe do Laboratório de Vírus Respiratórios e do Sarampo do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), um dos três laboratórios que são referência para a Organização Mundial da Saúde (OMS) em covid-19 nas Américas.

 

“Tudo indica que esse coronavírus vai ficar entre nós, ele veio para ficar. Naturalmente que a permanência ou a gravidade dele vai depender de quão boas ou eficazes forem as vacinas”, afirma Marilda, que comanda o laboratório, que, entre outras atividades ligadas ao Sars-Cov-2, responde pelo sequenciamento genético do vírus, que permite analisar as amostras e identificar se há novas variantes ou não.

 

Marilda se mostra preocupada especialmente com o atual ritmo de vacinação e com as aglomerações. De um lado, a campanha de vacinação segue restrita em função da quantidade insuficiente de vacinas. Do outro, a população tem seguido sem isolamento, indo a praias e restaurantes, sem o devido cuidado com o uso de máscaras.

 

Ela reconhece o impacto socioeconômico da pandemia na sociedade, com fechamento de empresas e aumento do desemprego, mas aponta que não pode haver “abertura sem controle”. “E a chance que a gente está dando para o vírus mudar e de repente sair uma variante que precisa mudar a vacina? A gente também está cooperando para isso”, alerta a pesquisadora, para quem “as pessoas estão exagerando”, “dando mais chance para o vírus se espalhar”.

 

Ela defende ações de todos os níveis de governo – federal, estadual e municipal – para que o momento seja de “menos prejuízos de vidas, hospitalizações e doenças” e considera até mesmo a vacinação obrigatória como uma alternativa neste momento, se necessário. A vacinação é parte de uma responsabilidade coletiva, reforça ela, ainda mais quando se observa que as consequências do vírus também dependem de fatores individuais e genéticos. “Se tem alguém do meu lado que pode ter um quadro grave e vir a morrer, eu tenho uma responsabilidade. Nossa atitude pode se refletir no outro sobreviver ou não”, diz.

 

Marilda é veemente ao afirmar que “as pessoas têm que buscar a informação na ciência, não no achismo”, e lembra o êxito da vacinação em doenças como varíola e sarampo para reforçar a importância da vacinação de todos. No caso do sarampo, por exemplo, na década de 80 ainda morriam, por ano, cerca de 2,5 milhões de crianças no mundo por causa da doença. Hoje, esse número caiu para 75 mil crianças por ano, que ainda precisa melhorar, de acordo com ela, já que a vacina contra o sarampo é uma das mais eficientes do mundo.

 

“Vem cá, tem ou não que ter que vacinar? Estamos diante de uma pandemia, de um fato novo, que está afetando as pessoas socialmente, economicamente, educacionalmente, psicologicamente… Aí vou questionar se devo participar desse processo? Acho que não tem nem o que pensar”, argumenta.

 

Cuidadosa ao falar sobre as mutações do vírus, Marilda explica que há centenas já identificadas e que uma mutação não significa necessariamente que o vírus se torna mais transmissível ou de maior gravidade. Apenas algumas são classificadas como VOC, que vem do inglês “variants of concern”, ou seja, que trazem alerta para suas consequências.

 

O desafio do coronavírus é que, por ser formado por material genético de RNA, tem maior capacidade de mutações. Além disso, está se reproduzindo de forma muito rápida na população por ser novo, com transmissão respiratória, que é muito mais fácil do que outras formas. “Ele tem essa transmissão respiratória, que facilita muito que passe de uma pessoa a outra, e se reproduza muito. Quanto mais se reproduzir, mais chance tem de mudar. Até porque ele vai se adaptando ao organismo, também para escapar do nosso sistema imune”, lembra.

 

No caso da nova cepa de Manaus, no entanto, ela reconhece que os estudos já existentes – que consideram não apenas as análises de laboratório, mas também dados clínicos, por exemplo – apontam para esse maior grau de transmissibilidade. Ela aponta que a P1, que é a variante de Manaus, tem um conjunto de mutações chamada de “constelação de mutações”, algumas delas presentes também nas variantes da África do Sul e do Reino Unido, embora todas tenham evoluído de maneira independente.

 

“Algumas mutações aparentemente apresentam essa capacidade de ser mais transmissível, como a que está presente nessa mostra do Reino Unido e A que está presente nesta mostra de Manaus”, afirma.

 

Por enquanto, aponta Marilda, as indústrias farmacêuticas vêm apontando que as mutações não comprometem a eficácia das vacinas já desenvolvidas, mas a existência de alterações para cepas com maior capacidade de transmissão reforça a importância de um monitoramento constante do novo vírus, como já é realizado para o influenza, da gripe. Nem sempre é necessário alterar a vacina para que ela continue eficaz para novas variantes do vírus. Mas quanto mais o vírus muda, maior é a chance de isso ocorrer.

 

Muito estudo ainda precisa ser feito, no entanto, para que se compreenda melhor o comportamento do vírus, ainda muito recente, com pouco mais de um ano. Outros vírus são conhecidos há décadas e, na maioria das vezes, uma vacina leva anos para ser desenvolvida. Uma das questões importantes, aponta ela, é a imunidade provocada pelo vírus e a periodicidade com que será necessário vacinar a população. A campanha de vacina de gripe, por exemplo, é feita anualmente.

 

“Temos muitos questionamentos ainda. A imunidade que esse vírus causa é permanente? É de longa duração ou é mais fraca? A gente vai ter que se vacinar de quanto em quanto tempo? Uma dose de vacina a cada dez anos, como o tétano? Ou uma vez por ano, como é a influenza? A gente ainda precisa de mais tempo para responder a esses questionamentos”, alerta.


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