SOPESP NOTÍCIAS

Home   /   Eventos   /   A agenda ambiental da China e a agropecuária brasileira

A agenda ambiental da China e a agropecuária brasileira


Fonte: Revista Ferroviária (19 de janeiro de 2021 )
– Foto: Nancy Yang/Unsplash

 

Valor Econômico (Opinião) – Na última década, a China assumiu papel preponderante no comércio e atração de investimentos diretos para o Brasil. Desde 2009, é nosso principal parceiro comercial. O agronegócio exportou para a China US$ 32 bilhões de janeiro a novembro de 2020, ou 34,7% do total. O país foi o principal destino de sete dos dez maiores produtos exportados pelo setor: soja, carne bovina, açúcar, celulose, frango, algodão e carne suína.

 

O rápido aprofundamento do relacionamento com país de história e cultura tão distintas da nossa alimentam o imaginário local com visões que nem sempre correspondem à realidade. Escreve Henry Kissinger em Sobre a China: Diferentes histórias e culturas produzem conclusões ocasionalmente divergentes. Nem sempre concordei com a perspectiva chinesa, assim como nem todo leitor vai concordar. Mas é necessário compreendê-la, uma vez que a China vai desempenhar esse papel tão importante no mundo que está emergindo no século XXI.

 

A realidade da China é dinâmica e as transformações aceleradas. A seu modo, o país liderou um dos mais impressionantes processos de desenvolvimento econômico da história e retirou da pobreza 850 milhões de pessoas, segundo o Banco Mundial. O desenvolvimento da agricultura em larga escala no mundo foi essencial para alimentar a população crescente e sustentar os padrões de consumo da nova classe média. O Brasil soube adaptar as tecnologias à produção tropical, tornou-se uma potência agrícola e parceiro de confiança da China no fornecimento de alimentos. O país asiático consolidou sua posição entre os maiores produtores e exportadores de produtos agrícolas e, mais recentemente, como grande importador.

 

Novos desafios globais como mudança do clima, conservação e recuperação de florestas e manutenção da biodiversidade estão recolocando a agricultura no centro da discussão internacional. A China não está alheia ao processo e, portanto, nosso agronegócio precisa estar atento a estes desdobramentos, com seus desafios e oportunidades.

 

Maior emissor de gases de efeito estufa, com 28% do total mundial, a China surpreendeu com recente compromisso de alcançar a neutralidade de emissões até 2060. A meta está sobretudo relacionada à mudança das matrizes energética e de transportes. Além disso, como se trata de emissão e sequestro de carbono dentro do país, não afeta automaticamente as importações de nossos produtos agropecuários. A neutralidade climática, contudo, é parte de ampla mudança de mentalidade que envolve a alta liderança política do país e que tende a se espraiar progressivamente pelas empresas e atingir também os consumidores chineses.

 

A atenção aos problemas ambientais por parte das elites dirigentes e da sociedade chinesa foi-se desenvolvendo conforme tornaram-se evidentes os enormes impactos do crescimento econômico acelerado do país nas quatro últimas décadas. A proteção do meio ambiente é hoje apresentada como a força motriz do desenvolvimento de alta qualidade, particularmente da modernização econômica, industrial e energética chinesas.

 

Em 2018, o conceito de civilização ecológica foi inserido na constituição chinesa, realçando a tentativa de resolver tensões entre conservação ambiental e desenvolvimento econômico por meio de iniciativas concretas, como promoção das energias renováveis, economia de baixo carbono, reciclagem, reflorestamento e despoluição da água e do ar. O 14º Plano Quinquenal, a ser apresentado em março próximo, projeta o desenvolvimento econômico e social do país entre 2021 e 2025 com o meio ambiente como tema de primeira grandeza.

 

É razoável supor, a partir disto, que empresas e bancos chineses que atuam no mercado internacional passem a adotar critérios de sustentabilidade em projetos e nas relações com fornecedores e parceiros. O principal motivo seria a preocupação com a reputação das corporações, mas estes fatores têm também implicações sobre o acesso a financiamento internacional, que frequentemente envolvem critérios de sustentabilidade, bem como exigências de consumidores cada vez mais atentos ao tema. No mundo pós-covid-19, os conceitos de segurança sanitária, segurança do alimento e sustentabilidade caminharão cada vez mais próximos.

 

O compromisso ambiental chinês pode ser uma grande oportunidade de agregação de valor para a nossa agropecuária. O produtor capaz de atender a exigências de sustentabilidade poderá ser privilegiado. Sem deixar de reconhecer que é necessário trabalhar por melhorias contínuas neste quesito, o Brasil está bem posicionado para ser um parceiro de confiança da China no fornecimento de alimentos seguros, na escala necessária e produzidos de forma ambientalmente correta.

 

A Cofco International, subsidiária da maior empresa de alimentos e agricultura da China, anunciou recentemente a meta de rastrear toda a soja que compra no Brasil de fornecedores diretos até 2023. Segundo a empresa, o compromisso resulta da linha de financiamento verde superior a US$ 2 bilhões obtida junto a bancos internacionais em 2019, que prevê descontos nos juros com base em resultados de sustentabilidade. Desde o ano passado, a empresa mapeia fornecedores de soja no Brasil, Argentina e Paraguai, e afirma ter rastreado 100% da soja originada de forma direta de 25 municípios do cerrado prioritários por sua biodiversidade. Também estariam em curso iniciativas relacionadas à sustentabilidade das cadeias de café e algodão.

 

O caso da soja, nosso principal produto, é ilustrativo do comércio agrícola Brasil-China em geral. Nossa maior importadora do grão está adotando protocolos de sustentabilidade. É um indicativo claro de que o tema não deve ser visto como atributo de nicho ou de consumo de alta renda.

 

Ignorar o crescimento das preocupações ambientais da China não é uma opção. É cedo para medir o real impacto para o produtor brasileiro, mas devemos estar unidos a nossos parceiros chineses neste desafio e aproveitar a oportunidade para agregar valor ao nosso produto.

 

Larissa Wachholz é assessora especial da ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento para Assuntos de China.

 

Lígia Dutra é superintendente de Relações Internacionais da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).


Mais lidas


Os dados divulgados pela Autoridade Portuária de Santos (APS), em seu balanço operacional de março, apontam um recorde histórico na movimentação de cargas. Foram mais de 15,16 milhões de toneladas que passaram pelos terminais do Porto de Santos, um crescimento de 10,4% comparado com a marca histórica anterior, conquistada em agosto de 2020.   O […]

Leia Mais

Através de um investimento de 100 milhões de euros, a Tesla irá entregar os dois primeiros navios porta-contêinereselétricos à Holandesa Port-Liner, em Agosto.   Após a entrega, a Tesla entregará ainda mais seis navios com mais de 110 metros de comprimento, com capacidade para 270 contentores, que funcionarão com quatro caixas de bateria que lhes […]

Leia Mais

Os assistidos pelo Instituto Portus de Seguridade Social, o fundo de pensão dos portuários, obtiveram importante vitória na Justiça. O juiz José Alonso Beltrame Júnior, da 10ª Vara Cível de Santos, concedeu liminar em que determina a suspensão do aumento na contribuição dos participantes da ativa e aposentados.   A ação civil pública foi promovida […]

Leia Mais