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‘Precisamos ter atenção com clima, câmbio e China’


Fonte: Valor Econômico (15 de janeiro de 2021 )
O ex-ministro Roberto Rodrigues, coordenador do Centro de Agronegócio da Fundação Getulio Vargas (FGV Agro): cenário é favorável, mas sempre há riscos — Foto: Silvia Zamboni/Valor

 

Embora as chuvas estejam se normalizando nas principais regiões produtoras de grãos, como destacou a Conab no levantamento de safra divulgado ontem, o clima segue como um dos pontos de atenção para a temporada.

 

De acordo com o ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues, coordenador do Centro de Agronegócio da Fundação Getulio Vargas (FGV Agro), as chuvas escassas ou irregulares observadas nos quatro últimos meses do ano passado, que atrasaram o ciclo da soja, ainda podem prejudicar a semeadura e o desenvolvimento da safrinha de milho.

 

“O cenário ainda é preocupante. Para as grandes culturas perenes (cana, café e açúcar), a estiagem do ano passado provocará muitos problemas este ano. E, no caso dos grãos, a segunda safra de milho ainda está em risco”, afirmou.

 

O ex-ministro concorda que, de maneira geral, as perspectivas são novamente positivas para o agronegócio brasileiro em 2021, uma vez que as cotações de commodities como soja e milho estão em patamar elevado no mercado internacional, o câmbio está favorável às exportações e a demanda externa, liderada pela China, continua aquecida.

 

Mas Rodrigues também tem receio com o câmbio e a China. No caso do câmbio, a preocupação é com a queda do dólar em relação ao real, que pode afetar a comercialização das colheitas. “Plantamos a nova safra com o dólar a R$ 5,30, e agora a moeda está em queda. Esse descasamento é sempre perigoso”, diz.

 

Como grande parte dos insumos agrícolas (sementes, fertilizantes e defensivos) usados no Brasil é importada, esse mercado também é dolarizado. Um eventual descasamento poderá espremer as margens de quem não estiver bem hedgeado.

 

No caso da China, a atenção do ex-ministro está voltada ao futuro das relações do país com os Estados Unidos na gestão do novo presidente americano, Joe Biden. A expectativa é que essas relações melhorem e que os EUA ampliem as exportações de produtos agropecuários ao mercado chinês, especialmente soja, milho e carnes.

 

“Como os estoques globais de soja e milho estão baixos, os preços tendem a continuar elevados. Mas é preciso ter atenção. Também temos que acompanhar os planos chineses de ampliar sua produção própria de grãos, sobretudo milho, e carnes. A recomposição da produção de carne suína do país depois da crise da peste africana, por exemplo, está acelerada. Talvez não tenhamos grandes mudanças em 2021, mas nos próximos anos esse aumento pode ter consequências para o mercado mundial”.

 

Roberto Rodrigues também vê com bons olhos os reflexos do acordo entre Mercosul e União Europeia para o agronegócio brasileiro, mas realça que, ao mesmo tempo, a UE ficará cada vez mais rigorosa em suas barreiras não-tarifárias, especialmente as relacionadas a questões ambientais. “E esse é o grande desafio: ofertar alimentos de qualidade, inclusive do ponto de vista socioambiental”.


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