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Pandemia e confinamento: a maior mudança no mundo desde a 2ª Guerra


Fonte: Estadão (16 de dezembro de 2020 )
Nos últimos 12 meses, o novo coronavírus paralisou as economias, devastou comunidades e trancou quase quatro bilhões de pessoas em suas casas Foto: Victor Moriyama/NYT

 

Quando o mundo deu as boas-vindas à nova década em um momento de alegria e de fogos de artifício em 1o de janeiro, ninguém poderia imaginar o que estava reservado para 2020.

 

Nos últimos 12 meses, o novo coronavírus paralisou as economias, devastou comunidades e confinou quase quatro bilhões de pessoas em suas casas. Foi um ano que mudou o mundo, como nenhum outro em pelo menos uma geração, possivelmente desde a Segunda Guerra.

 

Mais de 1,6 milhão de pessoas morreram. Ao menos 72 milhões contraíram oficialmente o vírus, mas o número real é, sem dúvida, bastante superior. Muitas crianças ficaram órfãs, as famílias foram separadas, e a doença derrotou milhões de pessoas em idade avançada, que em muitos casos morreram de maneira solitária porque as visitas estavam proibidas pelo risco que representavam.

 

“Esta pandemia é uma experiência única na vida de todos os habitantes atuais da Terra”, disse Sten Vermund, epidemiologista e decano da Faculdade de Saúde Pública de Yale. “Praticamente ninguém escapou”.

 

A covid-19 não é, porém, a pandemia mais letal da história. A peste negra, no século XIV, matou 25% da população mundial, ao menos 50 milhões de pessoas morreram vítimas da gripe espanhola em 1918-19, e 33 milhões faleceram, devido ao vírus da aids.

 

Mas, para contrair o novo coronavírus, basta algo tão simples como respirar no lugar errado, no momento errado.

 

“Estive nas portas do inferno e voltei”, disse Wan Chunhui, um sobrevivente chinês de 44 anos que passou 17 dias no hospital. “Vi com meus próprios olhos como outros não conseguiram superar e morreram, o que me impactou terrivelmente”.

 

Ninguém poderia imaginar a dimensão do desastre quando, em 31 de dezembro, a China comunicou a Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre 27 casos de “uma pneumonia viral de origem desconhecida” que desconcertou os médicos na cidade de Wuhan.

 

Primeiro caso em Wuhan

No dia seguinte, as autoridades fecharam o mercado de animais de Wuhan inicialmente relacionado com o foco. Em 7 de janeiro, as autoridades chinesas anunciaram que haviam identificado o novo vírus, o qual recebeu o nome 2019-nCoV. Em 11 de janeiro, a China anunciou a primeira morte em Wuhan. Em poucos dias, foram registrados casos na Ásia, França e Estados Unidos.

 

No fim de janeiro, os países começaram a repatriar seus cidadãos que estavam na China. As fronteiras do mundo começaram a fechar, e mais de 50 milhões de pessoas que moravam na província de Hubei, que tem Wuhan como capital, foram colocadas em quarentena.

 

As imagens da Agência France-Presse de um homem morto em plena rua, de máscara e com uma sacola de plástico na mão, transformaram-se na expressão do medo, embora as autoridades nunca tenham confirmado oficialmente a causa do óbito desta pessoa.

 

O mesmo aconteceu com o cruzeiro “Diamond Princess”, ancorado na costa do Japão, no qual mais de 700 pessoas foram infectadas com vírus, e 13 morreram.

 

Enquanto o horror se tornava mundial, a corrida pela vacina teve início. Um pequeno laboratório de biotecnologia alemão, chamado BioNTech, interrompeu as pesquisas contra o câncer para começar outro projeto. Seu nome? “Velocidade da luz”.

 

Em 11 de fevereiro, a OMS atribuiu à doença o nome covid-19. Quatro dias depois, a França confirmou a primeira morte fora da Ásia. A Europa observava horrorizada como o norte da Itália virava o epicentro do vírus no continente.

 

“É pior que a guerra”, declarou Orlando Gualdi, prefeito da cidade de Vertova, na região da Lombardia, em março, onde 36 pessoas morreram em 25 dias. “Era absurdo pensar que uma pandemia poderia acontecer em 2020”.

 

A Itália decretou confinamento e foi seguida por Espanha, França e Reino Unido. A OMS declarou a covid-19 uma pandemia. As fronteiras dos Estados Unidos, fechadas para a China, também foram bloqueadas para a maioria dos países da Europa. Pela primeira vez em tempos de paz, os Jogos Olímpicos foram adiados.

 

Confinamento

Em meados de abril, 3,9 bilhões de pessoas – metade da população mundial – foram obrigadas a respeitar algum tipo de confinamento. De Paris a Nova York, de Londres a Buenos Aires, as ruas foram dominadas pelo silêncio, quebrado apenas pelas sirenes das ambulâncias, que recordavam a proximidade da morte.

 

Os cientistas alertaram durante décadas para o risco de uma pandemia mundial, mas quase ninguém ouviu, e todos, inclusive os países mais ricos, lutavam contra um inimigo invisível.

 

Em uma economia globalizada, as cadeias de abastecimento foram interrompidas. Os consumidores, em pânico, esvaziaram os supermercados.

 

A falta crônica de investimento em saúde ficou evidente de maneira flagrante, diante das dificuldades dos hospitais para enfrentar a avalanche de pacientes e o colapso dos serviços de terapia intensiva.

 

Profissionais da saúde, com frequência mal remunerados e com cargas de trabalho brutais, travavam uma batalha sem os equipamentos de proteção necessários.

 

“Me formei em 1994, e os hospitais públicos já estavam totalmente abandonados na época”, afirmou em maio uma médica de Mumbai, Ídia. “Por que precisamos de uma pandemia para que as pessoas acordem?”, questionou.

 

Em Nova York, a cidade com o maior número de bilionários do mundo, os médicos foram obrigados a usar sacos de lixo para aumentar a proteção. Um hospital de campanha foi instalado no Central Park, e fossas comuns foram criadas na ilha de Hart, ao leste do Bronx.

 

“A gente está vendo cenas de filme de terror”, declarou Arthur Virgílio Neto, prefeito da cidade de Manaus, no Amazonas. “Passamos do estado de emergência ao desastre total”, disse, enquanto os corpos eram empilhados em caminhões frigoríficos à espera de que as máquinas terminassem de cavar as fossas comuns.

 

Os estabelecimentos comerciais fechavam as portas. Escolas e universidades, também. As competições esportivas foram canceladas. Os voos foram suspensos, e o setor aéreo passa pela maior crise de sua história. Lojas, bares, restaurantes e hotéis também foram muito afetados.

 

Na Espanha, o confinamento foi tão severo que as crianças passaram semanas sem poder sair de casa. As pessoas se viram trancadas em pequenos apartamentos durante semanas intermináveis.

 

Os que conseguiram passaram a trabalhar de casa. As videoconferências substituíram as reuniões presenciais, as viagens de trabalho e as comemorações. Aqueles sem condições de recorrer ao teletrabalho foram obrigados a escolher entre correr riscos, ou perder o emprego.

 

Em maio, a pandemia já havia provocado a perda de 20 milhões de postos de trabalho nos Estados Unidos. A recessão global pode levar 150 milhões de pessoas à extrema pobreza em 2021, advertiu o Banco Mundial.

 

Violência e recessão

As desigualdades, que cresceram nos últimos anos, foram expostas como nunca antes. Paramos de dar beijos, abraços e apertos de mão. Os contatos humanos agora acontecem atrás de telas transparentes e de máscaras.

 

A violência doméstica disparou, assim como os problemas de saúde mental. Enquanto aqueles com possibilidades e recursos financeiros passaram o confinamento em suas confortáveis residências no campo, ou na praia, o estresse aumentou em muitos que ficaram presos nas cidades. A raiva chegou às ruas. Os governos mostraram em vários momentos sua impotência diante da crise gigantesca e inesperada.

 

Os Estados Unidos, país que não possui um sistema universal de saúde, rapidamente se tornaram a nação mais afetada pela pandemia. Mais de 300 mil pessoas morreram até agora, mas o presidente Donald Trump minimizou a doença em vários momentos e defendeu tratamentos questionáveis, como a hidroxicloroquina, ou chegou a sugerir a utilidade de injetar alvejante.

 

Em maio, ele lançou a Operação “Warp Speed”, na qual o governo americano dedicou 11 bilhões de dólares para ajudar a financiar uma vacina contra a covid-19. Trump apresentou este como o maior projeto americano desde a criação da bomba atômica na Segunda Guerra.

 

Ninguém pode comprar imunidade, porém, e, em outubro, Trump contraiu covid-19, assim como o presidente Jair Bolsonaro, em julho. Na Europa, o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, passou três dias no CTI em abril.

 

Várias personalidades contraíram o vírus, incluindo ator Tom Hanks, o jogador de futebol Cristiano Ronaldo, o líder do ranking mundial do tênis Novak Djokovic, Madonna, o príncipe Charles, entre outros.

 

Vacina para 2021

Quase no fim do ano, as primeiras vacinas chegaram. Muito tarde, no entanto, para salvar Trump de sua derrota para Joe Biden em novembro.

 

Em parceria com a BioNTech, o grupo farmacêutico americano Pzifer anunciou que desenvolveu uma vacina com “eficácia de 90%”. O mercado ficou agitado, e os governos correram para garantir milhões de doses para seus cidadãos. Uma semana depois, o laboratório americano Moderna anunciou que sua vacina tem “eficácia de 95%”.

 

Os governos se preparam para vacinar milhões de pessoas, com prioridade para os idosos, profissionais da saúde e integrantes de grupos de risco, antes de campanhas de vacinação em larga escala que parecem ser a única maneira de recuperar a normalidade.

 

Em dezembro, o Reino Unido se tornou o primeiro país ocidental a autorizar a vacina desenvolvida pela BioNTech e a Pfizer. Rússia e China já haviam iniciado campanhas com vacinas próprias.

 

Os Estados Unidos também autorizam a vacina da Pfizer-BioNTech.

 

Os países ricos asseguraram milhões de doses para suas populações, e 2021 provavelmente terá uma corrida mundial pelas vacinas, na qual China e Rússia tentarão ganhar mercado e influência com seus produtos, mais baratos, especialmente na América Latina e na África.

 

Ainda é difícil calcular as consequências da pandemia. Alguns especialistas advertem que levará anos para a imunidade coletiva com a vacinação. Outros preveem a possibilidade de retornar à normalidade em meados do próximo ano.

 

Para muitos, a pandemia mudou a imagem do “home office”. Se trabalhar de casa se tornou algo normal, o que acontecerá com os prédios comerciais em muitas cidades? É possível que os centros urbanos fiquem vazios, quando as pessoas não precisarem mais comparecer fisicamente ao trabalho todos os dias e se mudem em busca de mais qualidade de vida, longe dos transtornos dos transportes públicos e de espaços reduzidos?

 

Outros preveem que o medo das grandes concentrações pode ter consequências profundas, em particular no turismo e viagens, lazer, ou eventos esportivos.

 

Também estão preocupados com o impacto nas liberdades. O centro de estudos Freedom House adverte que a democracia e os direitos humanos registraram uma deterioração em 80 países, já que muitos governos abusaram de seu poder com o argumento de controlar o vírus.

 

“Acredito que acontecerão profundas mudanças em nossa sociedade”, aponta Sten Vermund.

 

A economia mundial também enfrentará momentos difíceis. O Fundo Monetário Internacional (FMI) advertiu que a recessão será pior do que a registrada após a crise financeira de 2008. E, para muitos, a pandemia anuncia uma catástrofe muito mais duradoura e devastadora.

 

“A covid-19 foi uma grande onda que nos atingiu e, por trás, está o tsunami da mudança climática e do aquecimento do planeta”, afirma o astrobiólogo Lewis Dartnell, autor do livro “The Knowledge: How to Rebuild Our World from Scratch” (“O conhecimento: como reconstruir nosso mundo do zero”, em tradução livre), uma obra sobre como se recuperar de uma catástrofe mundial e sobre a resistência humana. /AFP


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