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Em meio à pandemia, mundo bate recorde de 80 milhões de refugiados e deslocados


Fonte: Valor Econômico (10 de dezembro de 2020 )
— Foto: Nariman El-Mofty/AP

 

O número de pessoas forçadas a deixar suas casas devido a perseguições, conflitos e violações de direitos humanos é estimado em mais de 80 milhões, de acordo com relatório divulgado nesta quarta-feira pelo Acnur, agência de refugiados da Organização das Nações Unidas (ONU). Desse total, pelo menos 30 milhões são crianças e adolescentes.

 

Apesar de ser um recorde na série histórica, o número é resultado de um levantamento prévio e pode ser ainda maior quando todos os dados deste ano forem contabilizados. O total de 79,5 milhões apurados no início do ano pelo Acnur inclui 45,7 milhões de pessoas deslocadas internamente, 29,6 milhões de refugiados e outros deslocados à força para fora de seus países e 4,2 milhões de requerentes de asilo.

 

Segundo o Acnur, o ano de 2020 foi particularmente mais difícil para os refugiados, devido aos conflitos novos e pré-existentes e à pandemia de covid-19. Em março, o secretário-geral da ONU, António Guterres, pediu aos líderes mundiais um cessar-fogo global enquanto o mundo lutava contra a covid-19, mas o apelo foi ignorado por diversos países.

 

“Com o deslocamento forçado dobrando na última década, a comunidade internacional está falhando em salvaguardar a paz”, disse Filippo Grandi, chefe do Acnur. “Estamos ultrapassando outro marco sombrio que continuará a crescer, a menos que os líderes mundiais parem as guerras.”

 

De acordo com o relatório da ONU, a covid-19 tornou-se um elemento agravante para a situação das pessoas forçadas a deixarem seus países. “O vírus interrompeu todos os aspectos da vida humana e agravou severamente os desafios existentes para os deslocados à força e as pessoas sem pátria”, diz o texto.

 

Os dados do Acnur mostram que as medidas adotadas para combater a disseminação do coronavírus dificultaram a assistência segura aos refugiados. Em abril, quando grande parte dos países viveu o pico da pandemia, 168 nações fecharam total ou parcialmente suas fronteiras, dentre as quais 90 não abriram exceções para requerentes de asilo.

 

A entidade afirma que negociou com 111 países para encontrar soluções pragmáticas que tornassem seus sistemas de acolhimento operacionais mesmo em meio à pandemia.

 

Apesar disso, os novos pedidos de asilo diminuíram um terço em comparação com o mesmo período em 2019 e, segundo o Acnur, “os fatores subjacentes que levam a conflitos em todo o mundo permanecem sem solução”.

 

O órgão da ONU também afirma que apenas 822,6 mil deslocados conseguiram voltar para casa, dos quais a maioria – 635 mil – era de pessoas que haviam permanecido em seus próprios países. Assim, o retorno de refugiados caiu 22% em comparação com o ano passado.

 

Mais de dois terços dos refugiados saíram de cinco países: Síria, Venezuela, Afeganistão, Sudão do Sul e Mianmar, Já as cinco nações que mais receberam os refugiados são Turquia, Colômbia, Paquistão, Uganda e Alemanha.

 

Na semana passada, a ONU divulgou outro relatório, o Panorama Humanitário Mundial, que aponta que 235 milhões de pessoas – 1 a cada 33 no planeta – precisarão de algum tipo de ajuda humanitária em 2021.

 

Para atendê-las, a ONU precisa atingir a marca de US$ 35 bilhões em doações. A meta é mais que o dobro dos recordes US$ 17 bilhões que a entidade recebeu dos países-membros em 2020, quando o objetivo era angariar US$ 29 bilhões.

 

O relatório apresenta um cenário sombrio das necessidades provocadas por conflitos, deslocamentos, desastres naturais e pela mudança climática, mas atribui à covid-19 a maior responsabilidade pelo aumento da demanda humanitária.

 

A pandemia, segundo a ONU, afetou de modo desproporcional as populações que “já vivem no fio da navalha”, e o panorama apresentado é “a perspectiva mais desoladora e sombria sobre a necessidade humanitária” já anunciada pela entidade.


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