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Alta produtividade no home office afeta tempo livre dos trabalhadores


Fonte: UOL (14 de setembro de 2020 )
56% dos brasileiros em home office têm dificuldade em delimitar horários para o trabalho – Imagem: Victoria Heath/Unsplash

 

Passados cinco meses de home office, empresas têm se afirmado satisfeitas com os resultados desse novo modelo de trabalho. Muitas atestam até crescimento na produtividade. Por outro lado, o alto rendimento pode ter um custo: as horas livres dos funcionários, que não conseguem “encerrar o expediente” dentro da própria casa.

 

Segundo a pesquisa realizada com 464 trabalhadores em home office pelo Centro de Inovação FGV-SP, 56% dos entrevistados afirmaram que encontram muita dificuldade ou dificuldade moderada para equilibrar as atividades profissionais e pessoais. Entre os entrevistados com 25 anos ou menos, o índice salta para 82,6%.

 

Algo similar foi detectado em um estudo da Fundação Instituto de Administração (FIA): 28% dos entrevistados discordaram da afirmação “o tempo que dedico ao trabalho é equilibrado entre as necessidades da empresa e as minhas necessidades pessoais”. Foi a maior rejeição entre todas as afirmativas da pesquisa sobre gestão de tempo.

 

Na Ambev, uma nova proposta de horários

Consultores de RH e especialistas em gestão de pessoas também percebem a tendência. “É o perigo de dissolver a fronteira entre ambientes doméstico e profissional. Há um risco não só em relação ao tempo, como estar disponível 24 horas por dia, mas também em relação à imersão no trabalho. Tem gente deixando de beber água, esquecendo de fazer refeições”, afirma Rodolfo Araujo, vice-presidente para América Latina da consultoria United Minds.

 

A Cervejaria Ambev detectou esse comportamento logo cedo. “Uma das primeiras medidas que tomamos foi reorganizar a dinâmica profissional. O horário recomendado passou a ser das 10h às 16h, para que as pessoas pudessem equilibrar outras atividades com o trabalho”, afirma Mariana Holanda, responsável pela área de saúde mental, bem-estar, diversidade e inclusão da empresa.

 

Essas “outras atividades”, como exercício, lazer e meditação, também são a sugestão da psicóloga Renata Macedo para estabelecer o fim do expediente. Isso porque os trabalhadores perderam um aliado “inusitado” nessa tarefa: o trânsito.

 

“De certa forma, o processo ir ou voltar da empresa nos impunha uma certa organização. Rotinas são protetivas para a saúde mental porque precisamos ter a sensação de que as coisas têm um início, um meio e um fim”, explica Renata, coautora de um guia editado pelo Sesi sobre saúde mental na pandemia. “Então estabelecer uma nova rotina é essencial”, conclui.

 

Recomendação do chefe: coloque seu almoço na agenda

Para que essa nova rotina dê certo, gestores precisam se mostrar receptivos. É o que afirma Dulce Brito, docente do curso “Saúde mental nas organizações em tempos de pandemia”, do Ensino Einstein. “Sempre orientamos líderes de equipe a perguntar aos colaboradores quais são suas necessidades neste momento. E muitos colaboradores respondem pedindo respeito aos horários, pedindo garantia de que não vão perder o emprego”.

 

Na OLX Brasil, o CHRO Sérgio Povoa também detectou um aumento na jornada de trabalho motivada pelo perigo do desemprego. “A pessoa tem medo de ser demitida. Aí o que ela faz? Trabalha que nem uma louca. Não para nem para almoçar. Eu mesmo, na primeira semana [de home office], esquecia. Acabava almoçando às 15h, às 16h?”, relembra.

 

Para solucionar a questão, a OLX decidiu aderir ao compromisso público de não-demissão, organizado por algumas instituições do setor privado. E passou a sugerir que os funcionários entendessem o tempo para si mesmo como um “compromisso”. “Demos essa dica para todo mundo: coloquem o horário de almoço na agenda. Coloquem o horário para estar com as crianças na agenda. E outras coisas desse tipo”, afirma Povoa. “Não temos dúvidas de que sem isso, o burnout vai chegar rapidamente”.

 

Menos reuniões, mais tempo com a família

A Síndrome de Burnout (distúrbio emocional ligado ao esgotamento profissional extremo) é um perigo real. No ano passado, a Organização Mundial da Saúde a incluiu oficialmente em seu catálogo de doenças. Segundo a Associação Nacional da Medicina do Trabalho, 30% dos brasileiros já sofrem com o problema – mesmo sem a pandemia.

 

“Não tivemos casos de burnout, mas estamos tomando o máximo de cuidado para que os colaboradores não fiquem estressados”, relata Carla Alves, diretora sênior de RH da Oracle para a América Latina. Assim como outras companhias, a Oracle elaborou um pacote de apoio à saúde mental dos seus funcionários, como sessões gratuitas de terapia com psicólogos.

 

O principal recurso de prevenção, porém, é o bom senso e o estabelecimento claro de limites. “As pessoas precisam ter certas atenções, como não participar de reuniões o dia todo ou deixar de fazer pausas”, explica. “O convívio familiar também é importante para este momento.” O Prêmio Lugares Incríveis para Trabalhar é uma iniciativa do UOL e da Fundação Instituto de Administração (FIA) que vai destacar as empresas brasileiras com os mais altos níveis de satisfação entre os seus colaboradores. Os vencedores serão definidos a partir dos resultados da pesquisa FIA Employee Experience, que vai medir o ambiente de trabalho, a cultura organizacional, a atuação da liderança e a satisfação com os serviços de RH. As inscrições estão abertas até o dia 12/9 e podem ser feitas, gratuitamente, no site da pesquisa FIA Employee Experience.


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