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Alfabetizar em casa desafia os pais durante a pandemia


Fonte: Valor Econômico (17 de agosto de 2020 )
Cláudia Meneses e o filho, Bernardo: contato com a escola ficou em 2º plano — Foto: Acervo Pessoal

 

Sem data para a volta às aulas presenciais, crianças de todo o país estão dando os primeiros passos rumo à alfabetização longe da escola e dos professores. O elo familiar é crucial na descoberta do mundo das letras e sons, mas hoje os pais se tornaram os condutores do aprendizado. Com condições sociais distintas, três famílias de São Paulo sintetizam a educação em tempos de pandemia: a evolução diária dos filhos veio acompanhada de uma adaptação forçada, estresse e pressão psicológica.

 

No Jardim Lapena, extremo leste de São Paulo, a diarista Solange Dias da Silva, 46 anos, precisou interromper o contato com a escola até conseguir lidar com a realidade da educação domiciliar. “Fiquei trancada três meses em casa sem trabalho, com as contas atrasadas. Comecei a viver de doações, não tinha cabeça para nada”, conta ela, que se separou do marido há dois anos.

 

No Jardim Lapena, zona leste de SP, abecedário de papelão ajuda alfabetização — Foto: Acervo Pessoal

 

Sua filha, Sophia Dias Ferreira, 6 anos, mal havia começado o 1° ano do fundamental quando a Escola Estadual Professor Pedro Moreira Matos interrompeu as aulas por causa do novo coronavírus. E, nessa idade, a supervisão dos pais precisa ser direta. Para completar o cenário desafiador, a paralisação da escola coincidiu com a saída para licença-maternidade da professora da turma de Sophia. “O celular estava ruim, a bateria não carregava, a internet não prestava, a lição chegava e não conseguíamos fazer. Fiquei desesperada”, conta Solange.

 

O alívio veio de um projeto de duas entidades sem fins lucrativos, a Fundação Tide Setubal e Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec). Desde meados de abril, Solange e sua filha têm ligações de vídeo por WhatsApp duas vezes por semana com professores voluntários do projeto. O contato dura cerca de uma hora e é usado para contar histórias, apresentar o alfabeto e mostrar às crianças as possibilidades do mundo escrito.

 

“Você já escreve e lê do seu jeitinho”, responde Solange à filha que, do outro lado da linha telefônica, diz que ainda não está alfabetizada. Para driblar a falta de metodologia e recursos dos pais, o projeto precisou encontrar soluções criativas. “Fomos inventando esse trabalho, nunca tínhamos alfabetizado por WhatsApp”, conta Maria Alice Junqueira, especialista em alfabetização do Cenpec. “Descobrimos que, como as crianças estavam vindo da creche, muitas nem conheciam o alfabeto. Então, as famílias construíram o abecedário em papelão em casa”, diz.

 

Onze famílias são atendidas pela iniciativa. A escola ajudou na seleção dos que mais precisavam de apoio. Um dos critérios foi escolher quem já teria condições de receber apoio remoto, como ter celular. “Uma das mães não tinha crédito no celular, então carregamos todo mês”, diz Andrelissa Ruiz, coordenadora de programas e projetos da Fundação Tide Setubal.

 

A entidade tem projetos na região desde 2006. Um deles é o Galpão ZL, espaço para atividades de empreendedorismo, esporte e que também conta com um acervo de livros.

 

Ao ver a evolução da filha, Solange diz que já faz planos de voltar a estudar. Ela parou na 8ª série porque precisava trabalhar quando chegou a São Paulo, há 29 anos, vinda da Bahia. “Tive de parar de estudar, trabalhava e morava em casa de família”, afirma.

A retomada está programada para 2021 e deverá ser bem longe da capital paulista. Sem perspectivas por causa da pandemia, ela fez o caminho inverso de três décadas atrás e, há pouco mais de um mês, voltou à sua cidade natal, Ourolândia, no norte da Bahia, a 416 quilômetros de Salvador. “Aqui é melhor, tenho toda a minha família”, conta. “Mas é muito parado, estou me acostumando.”

 

O reforço com o projeto do Cenpec e da Fundação Tide Setubal continua, apesar de a distância ter se ampliado. “Aqui não tem nenhuma aula, está tudo fechado e não mandam material para a casa das famílias”, diz. Por ora, a alfabetização on-line de Sophia seguirá até o fim de 2020.

 

A situação vivida por Solange é a mesma Brasil afora. No ano passado, havia 2,8 milhões de crianças matriculadas só no 1° ano do ensino fundamental, a maior parte (2,2 milhões) na rede pública, segundo o Censo Escolar.

 

No aspecto regulatório, há divergências sobre a idade certa para aprender a ler e escrever. O Plano Nacional de Alfabetização (PNA), instituído pelo governo de Jair Bolsonaro, prevê que essa etapa seja, prioritariamente, realizada até a 1ª série do fundamental. Já a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) permite até 2ª série do fundamental, e o Plano Nacional de Educação (PNE), até a 3ª série.

 

Também do Jardim Lapena, a subsíndica Telma F. dos Santos, 47 anos, precisou conciliar um dia a dia intenso com as lições da neta, Maria Eduarda, 6 anos, outra criança que participa da iniciativa de alfabetização a distância.

 

Telma faz a limpeza e acompanha os serviços gerais de um condomínio com 120 apartamentos e 500 moradores, onde também reside. “Surtei nos primeiros dias, era muito difícil. Chegou a pandemia e eu pensei, ‘como eu faço para cuidar da casa, neta e trabalho ao mesmo tempo?’”, lembra.

 

A neta Maria Eduarda, a Duda, mora com Telma desde o nascimento, e a subsíndica cuida do dia a dia da criança. A mãe de Duda reside em outro lugar, mas também participa ativamente das atividades da menina. “Ela não tinha noção de vogais, consoantes e numerais. Hoje, já consegue falar o abecedário, escreve o nome dela e dos professores. É um superavanço no meio da pandemia você conseguir alfabetizar uma criança”, conta.

 

Telma estudou até a 7ª série e também precisou enfrentar suas próprias barreiras de aprendizagem para educar a neta. “No começo foi difícil, mas estou aprendendo de novo. É muito bom ver que estou podendo contribuir com o ensino da minha neta com coisas que eu não tive. Criei quatro filhos sozinhas e todos terminaram a escola”, afirma.

 

Após a adaptação, Telma se diz satisfeita com o ensino em casa e descarta aulas presenciais no momento. “Prefiro que a Duda continue em casa até o fim do ano. Se o governo não pode se responsabilizar, também não podemos colocar a vida dos professores em risco”, afirma.

 

Mesmo com a tecnologia e melhores condições socioeconômicas, as dificuldades atingem a todas as classes sociais. A chefe de Recursos Humanos da startup Quanto, Cláudia Meneses, 40 anos, compreendeu rapidamente que não teria tempo para ajudar nas aulas a distância oferecidas pelo colégio particular do filho Bernardo, 6 anos.

 

Depois de muito vaivém, ela e o marido Rodrigo decidiram fazer uma divisão de tarefas. Em dia alternados, cada um dedica uma hora e meia para ajudar o filho na alfabetização e nas disciplinas de matemática e inglês.

 

O contato mais direto com a escola ficou em segundo plano, e apenas apostilas e vídeos com resumos dos conteúdos de outras disciplinas são passados para o filho. “No primeiro mês foi impossível, a gente não estava conseguindo fazer as aulas on-line, os pais precisam se dedicar muito”, afirma.

 

Natural de Porto Alegre, ela veio com o marido para São Paulo em 2016 e, após uma temporada de volta à cidade natal em 2019, retornou à capital paulista. Hoje, moram na Vila Andrade, zona sul de São Paulo. “No começo da pandemia estávamos iniciando novos trabalhos, eu em uma nova companhia e o Rodrigo assumindo uma nova posição na empresa em que trabalha”, afirma.

 

Segundo ela, os avanços do filho Bernardo são perceptíveis. “Ele já lê enunciados, entende a frase inteira. Até então era só a palavra ou um pedacinho dela. Me preocupava bastante ele não entrar no próximo ano já minimamente alfabetizado”, diz.

 

Com o rearranjo do ensino azeitado, Cláudia também prefere manter as coisas como estão no momento e mandar o filho de volta à escola somente em 2021. “É um desafio muito grande como família, mas somos privilegiados de ficar em casa e os dois estarem empregados” afirma.


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