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Demanda fraca e dólar forte derrubam preços de importação


Fonte: Valor Econômico (29 de junho de 2020 )
Lia Valls, pesquisadora do Ibre: comércio global este ano se desenrola em um cenário de maior concorrência — Foto: Nilani Goettems/Valor

 

Um misto de efeitos da desvalorização cambial, da fraqueza da demanda doméstica e da desaceleração do comércio internacional – sob impacto da pandemia e também das incertezas com o aumento da tensão no conflito entre Estados Unidos e China – provocou queda nos preços médios em dólar das importações brasileiras em 2020. No caso dos bens comprados da China, maior fornecedor isolado do país, os preços vinham caindo desde 2015, e a redução se acentuou neste ano.

 

De janeiro a maio, os preços caíram 6,3%, com queda mais acentuada em maio, de 11,3%, nos dois casos na comparação com igual período de 2019. Considerando os países que mais fornecem ao Brasil, houve recuo de 5% nos bens importados da China de janeiro a maio, redução maior que os 2,9% nos produtos com origem nos EUA. Já os preços dos bens vindos da União Europeia caíram apenas 0,5%. Os dados são do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV), levantados para o cálculo do Indicador de Comércio Exterior (Icomex).

 

 

Na classificação por países, segundo dados do governo, os chineses fornecem atualmente um quinto das importações totais brasileiras, seguidos dos americanos, com fatia de 16,8%. Já na visão por blocos, a participação da União Europeia é de 18%. Parceiro tradicional do Brasil, a Argentina tem atualmente um quinhão de 4,6%.

 

O valor em dólar dos importados chineses recua desde 2015, quando se agravou a recessão iniciada no ano anterior. Na comparação com os valores médios praticados de janeiro a maio de 2014, os preços ficaram 17% menores em iguais meses deste ano. O volume das importações “made in China”, porém, cresceu 12,4% na mesma comparação. Em igual período, os preços médios das importações de bens americanos caíram 4,7%. Ao contrário das importações de produtos chineses, no caso do desembarque de bens dos Estados Unidos houve queda de volume de 17% de janeiro a maio deste ano, contra iguais meses de 2014.

 

A economista Lia Valls, pesquisadora do Ibre e coordenadora do Icomex, lembra que o comércio deste ano tem como cenário a maior concorrência resultante tanto do encolhimento do mercado internacional, em razão do avanço da covid-19, quanto pelo acirramento da tensão entre Estados Unidos e China. “Há muita incerteza em relação aos rumos do acordo”, diz ela, o que pode afetar volume e preços. Projeções da Organização Mundial do Comércio (OMC) indicam retrocesso histórico de 18,5% do comércio mundial no segundo trimestre do ano, devido à pandemia, embora a queda esperada para o ano seja menor em razão da reação dos diversos governos.

 

José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), lembra que a queda de preços nas importações ficou mais clara a partir de abril e deverá ser a tendência para o restante do ano. A desvalorização do real frente ao dólar resulta naturalmente em negociação entre fornecedores e importadores e em preços mais baixos na moeda estrangeira. Com a desaceleração do comércio internacional, porém, isso se intensifica, diz ele, e para vender “a regra é o desconto”.

 

“No caso da China, que está muito estocada, isso deve vir com mais força”, diz Castro. O país asiático costuma ser mais agressivo na política de preços, avalia, e isso irá se acentuar se houver obstáculos à entrada de produtos chineses no mercado americano. “A China irá exportar para outros países e o Brasil, que tem menor competitividade e proteção, ficará mais vulnerável.”

 

Numa demonstração de que tem uma estratégia para fortalecer as exportações, lembra Castro, Pequim ampliou o “Reintegra” chinês. Ele se refere à política de restituição de tributos do governo chinês aos seus exportadores. Em março, o governo do país asiático anunciou o aumento da restituição do imposto aos exportadores para até 13%. O imposto foi ampliado para quase 1,5 mil produtos. O Reintegra brasileiro, compara Castro, dá crédito de 0,1% da receita com exportações.

 

Para Lia Valls, a pauta de importações, que é diversa para cada origem, também faz diferença. No caso da China, pondera, há diversidade de produtos, com participação grande de eletroeletrônicos e seus insumos, cujos preços tendem a cair muito no decorrer do tempo e mais ainda com demanda mundial menor.

 

Segundo dados oficiais, 30% das importações origem China de janeiro a maio são em material elétrico e eletrônico, incluindo som, imagem, aparelhos de comunicações, além de partes e peças. Máquinas e instrumentos mecânicos representam 13% e outra fatia também de 13% fica com plataformas de petróleo. Esse último item também contribui para elevar volumes, diz Lia. A pauta de bens “made in China”, porém, é vasta e inclui produtos químicos, de plástico, têxtil e vestuários e peças para o setor automotivo, entre outros.

 

Além da sobreoferta e da queda de preços de alguns produtos que podem resultar do acirramento do conflito entre EUA e China, a crise atual, que atinge tanto país exportadores quanto importadores, também pode trazer redução global de preços de insumos relevantes, diz Welber Barral, sócio da Barral M Jorge e ex-secretário de Comércio Exterior. Isso, diz ele, também já pode ter afetado a evolução de preços dos bens que usam esses insumos, embora o impacto seja diferenciado para cada setor.

 

Parceiro historicamente importante para o Brasil na exportação de manufaturados, a Argentina ficou este ano com participação menor tanto como destino de embarques quanto como origem de importações brasileiras. O comércio bilateral foi afetado antes da pandemia, em razão da crise da economia argentina.

 

Os preços médios em dólar de bens comprados do país vizinho caíram também 5% de janeiro a maio deste ano na comparação com igual período de 2019, no mesmo nível que os produtos made in China. Considerando os últimos seis anos, porém, caíram mais. A queda de preços médios comparada com janeiro a maio de 2014 é de 20,5%. Ou seja, 3,2 pontos a mais de recuo em relação aos preços das importações chinesas, na mesma comparação. A grande diferença é que o volume das importações argentinas despencou. Essa quantidade caiu 25,4% em relação a janeiro a maio do ano passado e 31,4% contra iguais meses de 2014.

 

A queda do lado das importações no comércio com a Argentina, explica Lia, é um reflexo das exportações, que também despencaram. Nesse comércio bilateral, o ramo automobilístico, incluindo tanto veículos quanto peças, é o mais importante e há muita troca intracompanhia.


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