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Está na hora de uma Grande Redefinição, diz fundador e presidente do Fórum Econômico Mundial


Fonte: O Globo (3 de junho de 2020 )
Klaus Schwab é fundador e presidente do Fórum Econômico Mundial – Foto: O Globo

 

Os confinamentos devido à Covid-19 podem estar diminuindo gradualmente, mas a ansiedade sobre as perspetivas sociais e econômicas do mundo estão se intensificando. Há boas razões para preocupação: uma forte crise econômica já começou, e podemos estar prestes a enfrentar a pior depressão desde a década de 1930. Mas, embora este resultado seja provável, não é inevitável.

 

Para alcançar um resultado melhor, o mundo deve agir em conjunto e rapidamente para reformular todos os aspectos das nossas sociedades e economias, da educação aos contratos sociais e às condições de trabalho. Todos os países, dos Estados Unidos à China, devem participar, e todos os setores, do petróleo e gás à tecnologia, devem ser transformados. Em suma, precisamos de uma “Grande Redefinição” do capitalismo.

 

Existem muitas razões para efetuar uma Grande Redefinição, mas a mais urgente é a Covid-19. Tendo já causado centenas de milhares de mortes, a pandemia representa uma das piores crises de saúde pública da história recente. E, com o número de mortes ainda subindo em muitas partes do mundo, está longe de terminar.

 

Isto terá sérias consequências a longo prazo para o crescimento econômico, para a dívida pública, para o emprego e para o bem-estar humano. De acordo com o jornal britânico Financial Times, a dívida global dos governos já atingiu o seu nível mais alto em tempos de paz. Além disso, o desemprego está crescendo exponencialmente em muitos países: nos EUA, por exemplo, desde meados de março, um em cada quatro trabalhadores declarou-se desempregado, com novas notificações semanais muito acima dos máximos históricos.

 

O Fundo Monetário Internacional espera que a economia mundial recue 3% este ano — uma queda de 6,3 pontos percentuais em apenas quatro meses.

 

Tudo isso agravará as crises climáticas e sociais que já estavam em curso. Alguns países já utilizaram a crise da Covid-19 como uma desculpa para enfraquecer a proteção e a execução da legislação ambiental.

 

E as frustrações relativas aos problemas sociais, tais como o aumento da desigualdade — a riqueza combinada dos bilionários americanos aumentou durante a crise — estão se intensificando.

 

Se não forem resolvidas, essas crises, juntamente com a Covid-19, irão se aprofundar e deixarão o mundo ainda menos sustentável, menos igualitário e mais frágil. As medidas incrementais e correções pontuais não serão suficientes para evitar este cenário. Devemos construir pilares completamente novos para os nossos sistemas econômicos e sociais.

 

O nível de cooperação e ambição que isso implica não tem precedentes. Mas não é um sonho impossível. De fato, um lado positivo da pandemia é que esta nos mostrou a rapidez com que podemos fazer mudanças radicais no nosso estilo de vida.

 

Quase instantaneamente, a crise obrigou empresas e indivíduos a abandonarem práticas há muito consideradas essenciais, das viagens aéreas frequentes ao trabalho no escritório.

 

Além disso, as populações demonstraram uma disposição impressionante para fazer sacrifícios em prol dos profissionais da saúde e de outros trabalhadores essenciais, bem como de populações vulneráveis, como os idosos. E muitas empresas intensificaram os seus esforços para apoiar os respectivos colaboradores, clientes e comunidades locais, numa mudança para o tipo de capitalismo de acionistas com o qual não haviam se comprometido anteriormente.

 

Claramente, existe a vontade de construir uma sociedade melhor. Devemos utilizá-la para garantir a Grande Redefinição de que tanto necessitamos. Esta exigirá governos mais fortes e eficazes, embora não implique um empurrão ideológico para que sejam maiores. E exigirá o envolvimento do setor privado a cada etapa do processo.

 

A agenda da Grande Redefinição seria constituída por três componentes principais. O primeiro direcionaria o mercado para resultados mais justos. Com vista a este objetivo, os governos deveriam melhorar a coordenação (por exemplo, em políticas tributária, regulatória e fiscal), atualizar os acordos comerciais e criar as condições para uma “economia de acionistas”. Numa época em que se verifica uma diminuição da base tributária e um aumento da dívida pública, os governos têm um poderoso incentivo para enveredar por este caminho.

 

Além disso, os governos devem implementar reformas há muito aguardadas, que promovam resultados mais equitativos. Dependendo do país, estas poderiam incluir alterações aos impostos sobre a riqueza, a retirada de subsídios aos combustíveis fósseis e novas regras para regular a propriedade intelectual, o comércio e a concorrência.

 

O segundo componente de uma agenda da Grande Redefinição garantiria que os investimentos promovessem objetivos comuns, tais como a igualdade e a sustentabilidade. Para esse efeito, os programas de investimentos em larga escala que muitos governos estão implementando representam uma grande oportunidade de progresso.

 

A Comissão Europeia, por um lado, revelou ter planos para um fundo de recuperação de € 750 bilhões (US$ 826 bilhões). Os EUA, a China e o Japão também têm planos ambiciosos de estímulo econômico.

 

Em vez de utilizar estes fundos em investimentos em entidades privadas e fundos de pensão, para compensar as lacunas no sistema antigo, devemos usá-los para criar um novo sistema que seja mais resiliente, equitativo e sustentável a longo prazo. Isso significa, por exemplo, construir infraestrutura urbana “verde” e criar incentivos para que as indústrias melhorem seu registo de indicadores ambientais, sociais e de governança (ASG).

 

A terceira e última prioridade de uma agenda da Grande Redefinição é tirar partido das inovações da Quarta Revolução Industrial para apoiar o bem público, especialmente abordando os desafios sociais e de saúde.

 

Durante a crise da Covid-19, empresas, universidades e outras entidades uniram-se para desenvolver diagnósticos, técnicas terapêuticas e possíveis vacinas; para estabelecer centros de teste; para criar mecanismos destinados a rastrear infeções; e para prestar consultas em telemedicina. Imagine o que seria possível se esforços concertados semelhantes fossem feitos em todos os setores.

 

A crise da Covid-19 está afetando todas as facetas da vida das pessoas, em todos os cantos do mundo. Mas a tragédia não tem de ser o seu único legado. Pelo contrário, a pandemia representa uma rara mas estreita janela de oportunidade para refletir, reimaginar e redefinir o nosso mundo, para criar um futuro mais saudável, mais equitativo e mais próspero.


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