SOPESP NOTÍCIAS

Home   /   Eventos   /   Exportadores correm para ‘travar câmbio’

Exportadores correm para ‘travar câmbio’


Fonte: Valor Econômico (23 de abril de 2020 )
Zenaro, da B3: Salto do dólar trouxe volume atípico de operações cambiais — Foto: Ana Paula Paiva/Valor

A intensa valorização do dólar desde o início da crise levou a uma corrida entre exportadores para fechar contratos de câmbio e garantir os ganhos obtidos com a venda de seus produtos no exterior. Segundo profissionais ouvidos pelo Valor, o movimento ocorreu principalmente entre as empresas ligadas a commodities, que aproveitaram a disparada da moeda americana para fazer caixa ou apenas se beneficiar de um momento em que a desvalorização cambial chega a mais que compensar a queda dos preços dos produtos lá fora.

 

A decisão ficou evidente nos dados de fluxo cambial. Mesmo em um momento de saída de capital por outras vias, a entrada de recursos no país via exportações chegou a US$ 63,2 bilhões até o último dia 17, segundo o Banco Central, superando com alguma folga os US$ 51,9 bilhões registrados do mesmo período do ano passado. No acumulado de 2020, o fluxo comercial tem superávit de US$ 17,3 bilhões, ante US$ 5,7 bilhões em 2019. A conta se apoia, principalmente, em operações que incluem diferentes tipos de financiamento, como Adiantamento sobre Contrato de Câmbio (ACC) e Pagamento Antecipado (PA).

 

Durante os meses de fevereiro e março, no pico de estresse do mercado financeiro, o fluxo comercial totalizou US$ 13,2 bilhões, montante muito superior ao de 2019, que foi de US$ 4,9 bilhões. Olhando só para dados de exportações, houve aumento de 42% dos contratos de câmbio via Adiantamento de Contrato de Câmbio (ACCs, que funcionam como uma antecipação de recursos ao exportador) e de 109% do Pagamento Antecipado (PA). “Os dados sugerem que, de fato, o fluxo maior trazido para exportadores se deve ao fato dele estar aproveitando câmbio mais favorável para trazer recursos”, diz Iana Ferrão, economista do BTG.

 

Guilherme Abrahão, responsável pela mesa de câmbio para clientes corporativos do Citi, lembra que o exportador de commodity sofreu muito com a queda dos preços no mercado internacional, mas viu uma janela de oportunidade para rentabilizar o preço de commodities em reais. “Tinha muita coisa represada. Antes, era preço baixo e dólar a R$ 4,10. Agora, o preço continua baixo, mas o câmbio foi a R$ 5,20”, diz. “Quem precisava de liquidez, fez ACCs e gerou caixa em reais; quem tinha condições de liquidez mais adequada optou por instrumentos de trava cambial.”

 

De acordo com alguns analistas, as linhas de crédito à exportação também ganharam força porque há uma demanda grande por funding agora no mercado. “O financiamento vinculado a exportação tem prazo mais curto e os preços estão mais interessantes para os bancos também. Por isso os volumes [de contratação de ACC e AP] aumentam”, diz um profissional, que preferiu não ser identificado.

 

As operações de adiantamento de contrato de câmbio são mais usadas pelos pequenos e médios exportadores, que têm necessidade maior de caixa neste momento, explica Vanessa Basseto Cruz, superintendente executiva da área de Global Trade Services (GTS) do Santander Brasil. “Houve uma corrida muito grande por caixa no começo de março para implementar plano de colchão de liquidez”, afirma a profissional. Mesmo do lado dos bancos, esse é um crédito mais acessível, porque é lastreado nas operações de exportação e pode ser feito on-line, diminuindo o prêmio de risco, acrescenta.

 

Já os exportadores maiores podem travar a cotação, via derivativos, como os contratos de Non Deliverable Forward (NDF) – que também tiveram um aumento expressivo no mês passado. De acordo com dados mais recentes da B3, as empresas venderam em março o equivalente a US$ 31,5 bilhões aos bancos, via contratos de NDF, praticamente o dobro do valor fechado em fevereiro de 2020 (US$ 16,3 bilhões) e março de 2019 (US$ 14,4 bilhões).

 

“O volume de março foi muito atípico, por causa da intensidade da disparada do dólar. O exportador aproveitou o movimento no câmbio e travou a cotação de março até o começo de abril”, afirma Fabio Zenaro, diretor de produtos de balcão, commodities e novos negócios da B3.

 

De acordo com analistas, o movimento de “trava” de cotação pelos exportadores ganhou força quando o dólar saiu de R$ 5 para R$ 5,30. No entanto, o que mais teria motivado a busca por derivativos foi a intensidade do movimento de alta do dólar.

 

O diretor comercial do Travelex Bank, Paulo Marcos, afirma que apenas na primeira quinzena de abril, o volume de operações de trava de exportação já fechadas no banco foi 5,42 vezes maior que o volume do mês de março inteiro. “Quando conversamos com os empresários, a percepção é que o dólar chegou perto do topo. Por isso, aproveitam essa janela e buscam travar entre R$ 5,20 e R$ 5,30”, explica o profissional, que firma suas operações via contratos de trava de exportações.

 

De olho em uma possível continuidade da valorização do dólar, por outro lado, alguns exportadores optaram por operar a partir de um instrumento específico para travar esse ganhos. Abrahão, do Citi, nota que as operações de “zero-cost collar” tiveram crescimento acima dos demais nesse período. “Nelas, você trava o piso de câmbio e participa de potencial novo movimento de desvalorização do real”, explica.

 

A intensidade desse movimento, no entanto, deve diminuir por dois motivos. Um deles é o câmbio, que ainda deve permanecer alto, mas sem saltos tão agressivos. A outra é que a antecipação de receitas tem um limite, nota Nuno Martins, chefe de estruturação e vendas de derivativos do Bank of America, que também registrou aumento significativo em operações com derivativos cambiais (NDF), em um movimento muito concentrado nas tradings de commodities agrícolas. “Isso está bastante associado a essa puxada do dólar e a atividade de produtores, que têm buscado vender grãos como a soja, que bateu seu maior preço em reais no fim de março”, afirma Martins.

 

Como as tradings fazem o meio de campo entre o produtor local e o exterior, elas buscam travar as cotações do dólar para evitar o risco de perder receita nas operações devido à instabilidade da moeda. “As tradings já comprometeram toda a safra 2019/2020 e boa parte da safra 2020/2021 conforme o dólar foi subindo”, destaca Martins, ao se referir a operação de fechar preços para produções futuras.

 

Ferrão, do BTG, também acredita em arrefecimento da tendência. “Em algum momento, exportadores não vão ter mais recursos para antecipar. Na última semana já vimos isso, mas ainda é cedo para falar que foi interrompido”, diz a profissional, em referência aos dados de fluxo cambial. “Dado que a gente não espera um aumento muito substancial da balança comercial este ano, isto também significa que o fluxo cambial não deve aumentar muito nessa linha.”


Mais lidas


Através de um investimento de 100 milhões de euros, a Tesla irá entregar os dois primeiros navios porta-contêinereselétricos à Holandesa Port-Liner, em Agosto.   Após a entrega, a Tesla entregará ainda mais seis navios com mais de 110 metros de comprimento, com capacidade para 270 contentores, que funcionarão com quatro caixas de bateria que lhes […]

Leia Mais

  O município de Balneário Barra do Sul, no litoral norte de Santa Catarina, poderá ganhar um empreendimento portuário vinculado a um complexo empresarial e de serviços. O empreendimento projetado – por ora é só isso, uma intenção – é denominado “Super porto BBS”. Dizem os investidores potenciais que o negócio poderá ocupar área de […]

Leia Mais