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Crise já afeta fusões e aquisições


Fonte: Valor Econômico (13 de abril de 2020 )
Carneiro, da DC: ‘Principais atores do M&A foram retirados do seu habitat natural’ — Foto: Divulgação

A pandemia do coronavírus deu um baque nas transações de fusões e aquisições (M&A) no Brasil e no mundo. Alta volatilidade, isolamento social, incerteza sobre o tamanho e tempo de impacto na economia têm levado vendedores e compradores a rever o ritmo de suas operações e até mesmo sua efetiva realização.

 

No país, grandes negócios em curso vão ganhar mais prazo para se concretizar, caso da venda de refinarias pela Petrobras e da telefonia móvel da Oi, enquanto outros já suspenderam as tratativas, como a venda dos restaurantes Outback no Brasil e a venda de ativos do grupo de educação Laureate, apurou o Valor. Também estão congelados temporariamente os processos de venda da Echoenergia e dos ativos financeiros da Fosun no país, conforme três fontes.

 

A projeção da consultoria Alvarez & Marsal, baseada no que aconteceu em crises anteriores, é de queda global de 60% nesse mercado. As contas da consultoria, com base em 2001 e em 2008, representarão uma queda de US$ 2,4 trilhões em 2019 para pouco menos de US$ 1 trilhão em 2020. No Brasil, a queda média deve ser de 64% sobre os R$ 26 bilhões transações fechadas.

 

“Comparamos com crises anteriores para ter uma magnitude do impacto em M&A. Os volumes caem de forma geral, mas aumenta o interesse de fundos ‘distressed’”, diz Carlos Priolli, sócio diretor da consultoria. “Com base no histórico, vemos que os volumes tendem a retomar o patamar pré-crise em prazos de três a cinco anos.”

 

Com administradores focados em salvar as finanças das companhias, em ajudar na sobrevivência de seus fornecedores e não tomar decisões arriscadas, a maioria das transações se torna secundária. Pode ser uma questão de semanas ou de meses, dependendo do ativo e da fase da negociação. “As conversas ainda não assinadas e em fase inicial de diligência tendem a escorregar com mais facilidade, enquanto a empresa que já assinou um contrato após diligência mas ainda não fechou pode demandar renegociação de prazo”, afirma Daniel Carneiro, sócio do escritório de advocacia DC Associados.

 

A Petrobras, por exemplo, informou aos proponentes da disputa de refinarias que o prazo para as ofertas vinculantes foi estendido em um mês. “Mas com certeza terá nova extensão. O processo vai acontecer por interesse da Petrobras e também dos compradores, que continuam engajados, mas em prazo maior”, diz um executivo que participa do processo.

 

Situação parecida é a da Oi, em que a venda da telefonia móvel continua sendo necessária para a empresa e estratégica para concorrentes. “É preciso entender que compradores internacionais estão lidando com a crise em seus mercados de origem e em outras subsidiárias, por isso precisam de tempo”, afirma uma fonte. O mesmo acontece com a petroquímica Braskem, que já vinha encontrando alguns obstáculos societários e setoriais, e com a pandemia dificilmente terá venda concretizada ainda este ano, como pretendido pelos controladores.

 

O cenário é outro no segmento de restaurante e em educação. A americana Bloomin’ Brands, controladora do Outback no Brasil, tinha dois interessados no negócio – a gestora Advent e a concorrente Madero. “Esse negócio morreu. É um segmento que tem sentido forte impacto da crise, o que afasta o interesse da Advent e faz com que o Madero tenha que lidar com seus próprios problemas”, diz um executivo. O Madero, que pretendia fazer listagem em bolsa nos EUA, já suspendeu temporariamente o plano, apurou o Valor, e demitiu cerca de 600 pessoas. Uma amostra do impacto de preços no setor é o grupo de restaurantes IMC, dono de redes como Frango Assado, Viena e KFC – listado na B3, vale atualmente US$ 100 milhões, com cerca de 500 restaurantes e receita anual superior a R$ 1,6 bilhão.

 

O grupo educacional Laureate tinha lançado processos de venda no Peru e no México e sinalizado intenção de venda no Brasil, em fase incipiente – mas com resultado fortemente ligado a cursos presenciais e foco da administração no balanço da companhia, o processo não vai avançar agora. O mesmo acontece com a venda total ou parcial dos ativos financeiros da chinesa Fosun – a gestora Rio Bravo e a plataforma de investimento Guide. No setor de energia, a gestora Actis também congelou as tratativas para a venda de sua geradora renovável Echoenergia.

 

“O mercado está sem referência de valores e de potencial de crescimento, que conta fortemente no ânimo do comprador”, explica o diretor de um banco de investimento. “Volatilidade alta na taxa de câmbio e na curva longa de juro, como estamos vendo, não ajudam processos de M&A. As empresas ficam menos dispostas a tomar risco e preferem dar um tempo nas negociações”, diz outro especialista.

 

Um dos fatores de postergação de transações, conforme cinco bancos de investimento e duas gestoras de private equity ouvidos pelo Valor, é o financiamento. “Para os grandes processos, que dependem de os compradores se financiarem no mercado, fica mais complicado. Os interessados precisam levantar dívida ou equity num momento de custos distorcidos e em que seus conselheiros podem revisar a exposição do balanço”, afirma uma fonte. Ele pondera que os bancos comerciais têm liquidez, mas estão mais focados nas multinacionais brasileiras e em suporte de capital de giro, do que no financiamento de aquisições, principalmente para empresas médias.

 

Outro executivo de longa carreira em M&A ressalta que os próprios bancos ainda estão fazendo conta. “Os bancos têm pouca visibilidade hoje sobre o efeito no balanço das empresas que eles já financiaram, de onde e quanto virá de virá de inadimplência”. Ele pondera que os resultados corporativos do segundo trimestre ficarão tão fora da curva que será difícil interpretá-los para fim de projeções de balanço e recuperação no médio prazo, tanto para análise bancária quanto para um eventual comprador.

 

Em transações que seguem de pé, compradores buscam postergar os custos. Na proposta de incorporação da AES Tietê, por exemplo, a geradora de energia Eneva ainda não tem um financiamento firmado com bancos. Conforme um executivo próximo à operação, a questão aqui não seria a dificuldade de acesso a crédito, mas a decisão de não se comprometer de antemão com taxas que, até o prazo final da proposta, podem ficar melhores. “A empresa quer otimizar o custo de financiamento”, diz a fonte.

 

Bancos e advogados continuam trabalhando em transações de saúde, tecnologia e telecomunicações. Mas, para os especialistas, exceto tratativas de empresas que necessitem de uma movimentação estratégica para sobreviver na crise, poucas transações novas vão surgir no curto prazo.


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