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‘Crise ambiental não será resolvida só com ciência e tecnologia’


Fonte: Valor Econômico (30 de outubro de 2019 )
Jared Diamond, geógrafo americano: para um dos grandes nomes do pensamento contemporâneo, a China, “com graves problemas políticos e ambientais”, não deve se tornar o país mais poderoso do mundo no futuro próximo — Foto: Kiyoshi Ota/Bloomberg

O geógrafo americano Jared Diamond, tido como um dos maiores nomes do pensamento contemporâneo, é conhecido pelas análises afiadas dos grandes desafios da humanidade. Ele diz que o crescimento econômico não pode seguir para sempre à custa dos recursos naturais. Afirma que ciência e tecnologia não resolverão sozinhas a crise ambiental. E conclui que só haverá equilíbrio quando os países ricos reduzirem o padrão de consumo para que os habitantes do mundo em desenvolvimento possam aumentar o seu.

 

“Tanto consumo, especialmente nos Estados Unidos, é um desperdício e não corresponde necessariamente a um alto padrão de vida”, diz Diamond, 82 anos, professor de geografia da Universidade da Califórnia. “Os americanos que dirigem grandes, ineficientes e pesados carros usufruem de um padrão de vida mais alto do que os americanos que dirigem carros menores e eficientes? Claro que não.”

 

A mudança climática é um dos grandes problemas mundiais que “modelarão nossas vidas nas próximas décadas”, cita. “Quase todos nós ouvimos falar delas”, diz em seu último livro, “Reviravolta: Como Indivíduos e Nações Bem-sucedidas se Recuperam das Crises”, lançado pela editora Record. “Mas são tão complicadas, confusas e cheias de paradoxos que poucas pessoas, com exceção dos especialistas, realmente as entendem.” O que não é, contudo, motivo para que políticos deixem de tomar decisões que estimulem a redução da queima de combustíveis fósseis e aumentem o leque da energia de fontes renováveis.

 

 

Diamond iniciou sua carreira científica em fisiologia, ampliando seu campo de pesquisa para a biologia evolutiva. Virá pela primeira vez ao Brasil em novembro, para o evento “Cidadão Global” promovido por Valor e Santander, dando sequência ao ciclo de debates iniciado em 2017 com o ex-presidente americano Barack Obama discutindo o que significa ser um cidadão no século XXI.

 

Em seu novo livro, Diamond estuda os desafios de sete países onde viveu, com os quais têm afinidade e que viveram choques e os superaram: Finlândia, Japão, Chile, Indonésia, Alemanha, Austrália e Estados Unidos.

 

A política americana, no seu entendimento, passou a se deteriorar em meados da década de 1990. Lembra que o Congresso americano, entre 2014 a 2016, aprovou o menor número de leis na história recente. A principal ameaça à democracia americana, diz, é a acelerada deterioração do compromisso político. “O consenso político está rompido hoje nos EUA”, afirma. “Aqui, se a democracia terminar, não será via um golpe militar, porque o Exército americano nunca foi envolvido na política”, pondera.

 

Em conversa com o fundador da Microsoft Bill Gates, em maio, o geógrafo disse que um dos motivos fundamentais da polarização atual é a falta de conversas reais, físicas, frente a frente. “Mas não vamos desistir de computadores e celulares”, argumenta no vídeo em que veste uma de suas gravatas com estampa de dinossauros. Em seguida, exemplifica: “Na Papua-Nova Guiné estão acostumados a ouvir as falas, a entender as expressões faciais, a linguagem corporal. O resultado é que crianças de cinco anos são peritas negociadoras. Crianças americanas, porém, não aprendem nada disso”.

 

Em “Reviravolta”, Diamond cita a musculatura chinesa em várias frentes: a população é quatro vezes maior que a americana, a taxa de crescimento supera a dos EUA e a de outros países ricos, o país tem o maior número de soldados, possui armas nucleares há 50 anos e supera os EUA em tecnologias de energias alternativas. “Cada vez mais escuta-se que o século XXI será um asiático, mais especificamente, chinês”, escreve.

 

Em entrevista por e-mail concedida ao Valor, contudo, Diamond pondera lembrando que a China “sofre de graves problemas políticos e ambientais” e diz não acreditar que o país se torne “o mais poderoso do mundo em um futuro próximo”.

 

Este ano, “Cidadão Global” traz ao Brasil Yuval Harari e Jared Diamond, dois autores que inspiram pensar, por óticas diferentes, o passado, o presente e o futuro da humanidade. Harari, historiador israelense e professor, é autor de best-sellers como “Sapiens: Uma Breve História da Humanidade” e “21 Lições para o Século 21”. A seguir, a entrevista de Diamond:

 

Valor: Com base em seu extenso trabalho, o senhor acredita que o crescimento econômico possa durar para sempre?

Jared Diamond: Claro que não. A razão óbvia está resumida em uma frase que um economista pouco usual escreveu na página de rosto de um livro-texto de economia: “Em um mundo de recursos finitos, as únicas pessoas que acreditam que o crescimento econômico possa durar para sempre são idiotas e a maioria dos economistas”.

 

Valor: Se não acredita nisso, o que poderia vir no lugar do crescimento econômico permanente?

Diamond: A resposta é novamente óbvia: uma economia sustentável, com melhores padrões de vida, mas sem aumentos adicionais no consumo de recursos.

 

Valor: A inovação científica e tecnológica pode fornecer respostas suficientes para a crise ecológica que estamos enfrentando?

Diamond: Inovação científica e tecnológica por si só não pode fornecer respostas suficientes para a crise ecológica, porque nossa maior necessidade agora é a vontade política de se adotar uma economia sustentável. Ciência e tecnologia, contudo, podem dar algumas contribuições neste rumo. Podem fornecer métodos aprimorados de produção de energia renovável ou diretrizes para a melhor forma de preservarmos as comunidades biológicas contra as ameaças. Mas é preciso ter cuidado. Muitos acreditam que a inovação científica e tecnológica pode resolver a crise sozinha, o que não é possível.

 

Valor: O planeta não comportará o padrão de consumo americano para os novos consumidores chineses. Não há recursos naturais para tanto e o senhor descreve esse ponto em seu último livro. Como se poderia alcançar um ponto de equilíbrio com justiça climática?

Diamond: Sim, nosso planeta não suportará toda a população mundial vivendo segundo os atuais padrões de consumo praticados pelo 1 bilhão de pessoas mais ricas do mundo: americanos, canadenses, europeus ocidentais, australianos, neozelandeses e japoneses. Mas chineses, indianos, indonésios, brasileiros e outros povos que vivem com taxas de consumo inferiores às dos países mais ricos querem, naturalmente, igualar suas taxas de consumo às deles. A única solução possível no nosso mundo globalizado é os países mais ricos operarem com taxas de consumo mais baixas, enquanto os em desenvolvimento atingirem taxas de consumo mais altas. Isto até que a maioria dos países do mundo opere com taxas de consumo aproximadamente semelhantes.

 

Valor: Esta ideia cria grande insatisfação entre os ricos.

Diamond: Muitas pessoas nos países ricos gritam que nunca sacrificarão seu padrão de vida pelo bem das pessoas nos países mais pobres. Porém, taxas de consumo mais baixas do que as praticadas atualmente nos EUA e na Europa Ocidental não significam um padrão de vida inferior. Tanto consumo, especialmente nos Estados Unidos, é um desperdício e não corresponde necessariamente a um alto padrão de vida. Os americanos que dirigem grandes, ineficientes e pesados carros usufruem de um padrão de vida mais alto do que os americanos que dirigem carros menores e eficientes? Claro que não.

 

Valor: O senhor lista problemas com potencial para causar dano mundial e cita a explosão de armas nucleares no topo. Também diz que quem tem idade para lembrar da “aterrorizante semana de outubro de 1962”, a da crise dos mísseis, repete que é uma memória que não se esquece. O senhor recoloca os riscos de uma guerra nuclear hoje, seja pela deterioração das relações EUA e Rússia, seja pelo cenário que envolve terrorismo. Esta é realmente uma realidade em 2019?

Diamond: Sim, o risco de uma guerra nuclear continua sendo uma ameaça real para o mundo em 2019. O maior risco de guerra nuclear é entre a Coreia do Norte e os Estados Unidos, e entre a Índia e o Paquistão. Talvez ainda maior seja o risco de terroristas obterem armas nucleares e empregá-las, por exemplo, contra os EUA ou a Europa Ocidental, sem constituir uma guerra entre nações, mas “apenas” o uso de armas nucleares por uns poucos terroristas loucos. Riscos menores, mas ainda reais, de guerra nuclear no futuro são entre Israel e Irã. E, agora, entre os Estados Unidos e a China ou a Rússia, disparada pela leitura incorreta de sinais ou de intenções.

 

Valor: Quanto à mudança do clima, o senhor acredita que exista vontade política para reduzir a queima de combustíveis fósseis e o desmatamento, assim como recursos financeiros suficientes para o mundo se descarbonizar?

Diamond: Algumas pessoas têm vontade política de reduzir a queima de combustíveis fósseis e o desmatamento. Outras, não. E há os que têm um desejo positivo de aumentar tanto a queima de combustíveis fósseis como o desmatamento. Felizmente, a avaliação da realidade da mudança climática e de sua causalidade pela queima de combustíveis fósseis e pelo desmatamento está aumentando rapidamente. Permanece incerto, contudo, se esta percepção está aumentando rápido o suficiente para nos salvar.

 

Valor: Como o senhor vê a ascensão da China na economia global e na geopolítica?

Diamond: Vejo a ascensão da China da mesma maneira que vejo as da Índia, do Brasil, do México, da Indonésia e de outros países em desenvolvimento. São grandes países em desenvolvimento que estão se tornando economicamente mais poderosos. China e Índia são os maiores. A China tem uma taxa de crescimento econômico especialmente alta, mas também sofre de graves problemas políticos e ambientais. Não vejo chance de a China se tornar o país mais poderoso do mundo em um futuro próximo.

 

Valor: O senhor dedica um capítulo especial ao Chile e seus anos militares “que superaram todos os recordes mundiais da ditadura sádica”. Esse tipo de cenário pode se repetir na América do Sul?

Diamond: O tipo de cenário chileno pode ser repetido em outros países da América do Sul e há grande risco de que isso também se repita nos Estados Unidos em um futuro próximo.

 

Valor: O senhor cita o Brasil apenas quatro vezes em seu livro – uma vez na participação brasileira com a ditadura chilena, outra como exportador de alimentos, como país emergente que quer consumir mais e, por fim, em sua participação na Guerra do Paraguai. Qual impressão o senhor tem deste país?

Diamond: Não tenho impressão do Brasil porque nunca estive aí. Minha visita no início de novembro será a primeira.

 

Valor: A democracia ainda é um sistema político que dá respostas ao mundo de hoje?

Diamond: A democracia ainda é o único sistema político que dá respostas ao mundo hoje. Como brincou Winston Churchill: “Democracia é de fato a pior forma de governo – à exceção de todas as outras que já foram experimentadas uma ou outra vez”. Democracias têm a enorme vantagem de permitir que ideias possam ser debatidas publicamente, até mesmo as que não são apreciadas pelo governo. Isso torna possível reverter políticas governamentais ruins.

 

Valor: Poderia dar um exemplo?

Diamond: O debate democrático acabou com a participação americana na Guerra do Vietnã e vem melhorando a igualdade e as oportunidades para diferentes grupos étnicos e entre homens e mulheres – embora essas políticas tenham sofrido (e no caso da igualdade ainda sofram) larga oposição dentro do governo. Obviamente as ditaduras podem realizar mudanças mais rapidamente do que as democracias, porque não se perde tempo com debates. Mas ninguém, nos 5.500 anos de história do governo centralizado, descobriu uma maneira de garantir que as ditaduras adotem apenas boas decisões, e não uma mistura de boas e más.


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