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Residência é novo modelo de trabalho para executivos


Fonte: Valor Econômico (30 de setembro de 2019 )
Guilherme Reichmann é empreendedor residente na Movile, onde trabalha sem cargo definido e sem saber sobre o seu futuro — Foto: Silvia Zamboni/Valor

Até os 37 anos, Guilherme Reichmann seguiu o que a cartilha da carreira bem-sucedida prega na escola de gestão tradicional. Graduação em engenharia, estágio em uma grande organização, analista de uma multinacional, trainee, trabalho em consultoria e MBA nos Estados Unidos. Entendeu a lógica que o faria crescer – e assim a seguiu. Subiu degraus nas hierarquias, ganhou as promoções previstas pelas organizações e, em 2014, assumiu a estratégia do grupo O Boticário.

 

Mas Reichmann buscava um “pouco mais de caos”. “Eu estava em uma empresa nota dez, com muitas conquistas, mas percebi que queria mudar de rota”, diz. “Sabia para onde estava minha mira, só não sabia onde estava o alvo”. Sua mira: trabalhar em um local onde a tecnologia fosse o “core”, o centro do negócio.

 

Ele avisou a liderança do O Boticário e planejou a saída com quatro meses de antecedência. Do lado de fora, ficou alguns meses sem emprego. Repensou a carreira e tentou encontrar seu novo alvo conversando com várias empresas. Entre elas, estava o grupo Movile, dona da Sympla, Wavy e investidora do iFood. “Foram várias conversas, inclusive com o CEO até acharmos um ponto em comum. Eles estavam buscando gente para crescer, só não sabiam para qual função”.

 

Desde agosto, seu LinkedIn traz a definição de “Entrepreneur in Residence”, um EIR (empreendedor residente, na tradução livre). Recebeu uma oferta de salário que considerou competitiva. Trabalha sem cargo definido, rotina pré-estabelecida e com a instabilidade de desconhecer o seu futuro no curto prazo. Vive uma espécie de residência que, embora remunerada, não tem data certa para acabar – como programa ou efetivação.

 

No primeiro mês, viajou aos escritórios da empresa pelo país, aprendeu sobre métodos, processo, cultura e tecnologia e conheceu os líderes de cada área. Sua nova rotina, que não tem agenda fixa, esbarrou com a de Daniel Bergman, com quem já havia trabalhado no início da carreira. Com a mesma idade, Bergman buscou transformação similar ao ingressar na Movile. Ele foi residente por três meses em 2018.

 

Para ser residente é preciso espírito empreendedor e estar aberto a mudanças e novas culturas

 

“Já havia trabalhado em funções distintas, de empresas de tamanhos e áreas diferentes. Naquele momento, queria construir algo de impacto, mas não sabia exatamente o quê. Com a residência, ganhei novos aprendizados, além da chance de construir aquilo que se tornaria a minha função”, diz Bergman. Desde outubro de 2018, ele é um funcionário do grupo e usa sua experiência anterior em meios de pagamentos e o que aprendeu dentro nas várias áreas da holding para tocar um time de 75 pessoas na MovilePay.

 

O programa de residência do grupo surgiu há um ano e meio, em uma iniciativa do RH com o apoio do CEO, Fabricio Bloise. “É uma forma de a empresa encontrar novos caminhos, potencializar oportunidades existentes e atingir a meta de impactar um bilhão de pessoas no mundo”, diz Luciana Carvalho, diretora de gente do grupo. Diferentemente de um trabalho temporário ou por projeto, os residentes não têm a obrigação de bater metas, entregar um serviço ou resolver um problemas. “Eles não são donos de nada no primeiro momento”, diz Luciana. Quatro executivos passaram pelo programa (dois concluíram e foram contratados, outros dois estão realizando , Guilherme e Patrick Hruby, ex-Facebook), A inspiração, segundo Luciana, veio dos fundos de venture capital e da varejista norte-americana Target.

 

O Vale do Silício fala de “entrepreneur-in-residence” há pelo menos uma década. O primeiro EIR do Google, por exemplo, foi Craig Walker, contratado em 2010 para a área de venture capital da companhia, então chamada de Google Ventures. “É um modelo comum nos fundos porque, enquanto os empreendedores tentam criar sua próxima startup podem levar sua experiência para as empresas investidas ou trabalhar em tarefas especiais”, diz o sócio de um fundo de venture capital estrangeiro que possui investimentos significativos no Brasil. Este é o modelo convencional de EIR no venture capital e que pode terminar em um investimento na startup criada pelo residente.

 

Mas investir não é uma obrigação do fundo. Cada caso é um caso. E há vários casos, de múltiplos formatos e tempo de duração, fora dos fundos. O EIR chegou às universidades americanas – Kellogg e Harvard, por exemplo, possuem programas – e às grandes companhias, com o intuito de manter a circulação de ideias e o fluxo de inovação constante.

 

Dependendo do formato e do objetivo do programa, a tradução de EIR muda de “entrepreneur” para “executive”. Mas o espírito de intraempreendedorismo é o mesmo. A Target estruturou seu programa em 2015, contratando três profissionais com perfis distintos daqueles que costumava recrutar para, como definiu no site oficial do programa, “trabalhar de uma forma diferente e criar novos negócios para crescer”. Um deles, comentando a experiência em seu LinkedIn, disse que durante o EIR sugeriu a criação de uma plataforma de e-commerce, testou protótipos, liderou um time em Sunnyvale, na Califórnia para construir novas tecnologias e ajudou a atrair investimentos.

 

Há empresas também que, ao invés de atraírem novos executivos para inclui-los em sua rotina interna, estimulam suas lideranças a viver a residência fora. A Ashoka, ONG que atua na promoção do empreendedorismo social em 92 países (incluindo o Brasil), mantém um programa de residência executiva desde 2009.

 

A cada ano, turmas de dez a trinta líderes de empresas como Boehringer Ingelheim e Ikea vão trabalhar “em campo”, colaborando com empreendedores sociais ligados à ONG e espalhados pelo mundo. A imersão pode durar três meses e o salário é pago por sua empresa. “Elas entendem que é uma forma de trabalhar de maneira estratégica vários aspectos da organização, como fortalecimento da cultura interna, desenvolvimento da liderança e capacidade de inovação”, afirma Jason Bernhardt-Lanier, diretor de parcerias do programa da Ashoka Global.

 

Existem empresas que, ao invés de atraírem executivos, estimulam suas lideranças a viver a residência fora

 

Do lado dos executivos, segundo ele, há uma procura por desenvolvimento e crescimento pessoal. “Eles buscam a satisfação interna de trabalhar, como indivíduos, em algo com propósito e impacto social”. Uma das turmas de 2018, por exemplo, formada por profissionais da tradicional empresa americana Western Union viajou à Índia para trabalhar ao lado do empreendedor social Monish Anand. “Eles puderam ver como funciona uma das principais fintechs indianas, a Shubh Loans, que está transformando o mercado de empréstimos e crédito do país para a população mais vulnerável”, diz Bernhardt-Lanier.

 

“Eles puderam ver como funciona uma das principais fintechs indianas, a Shubh Loans, que está transformando o mercado de empréstimos e crédito do país para a população mais vulnerável”, diz Bernhardt-Lanier. O resultado, segundo ele, é que os executivos retornaram como uma nova mentalidade do sistema bancário e ideias para impulsionar comportamentos financeiros mais positivos entre os clientes. A Ashoka não desenvolve o programa no Brasil, mas afirma ter “capacidade para executá-lo” aqui.

 

Programas de EIR são pouco difundidos no país, segundo os executivos brasileiros entrevistados. Entre eles, Marcell Almeida. Cientista da computação de 27 anos, ele construiu uma carreira focada na área de produto, sendo product manager de empresas como VivaReal e Intuit. Fundou uma startup e estava tocando dois negócios quando um amigo avisou que a Seek, dona da Catho no Brasil, buscava um profissional para comandar um lab.

 

Durante as conversas, sua função evoluiu para uma posição que assemelha-se a de um EIR. Há um ano e meio recebe um salário para testar, ao lado de uma equipe de 10 pessoas, novas soluções digitais. “Estou aprendendo em várias frentes: como estruturar uma empresa do zero, como trabalhar em um modelo de gestão flat, como descobrir o que priorizar para testar”, diz Almeida. Sua residência, que ocorre fisicamente em um espaço diferente do da Catho, não tem data de término. “Não é muito rígido em termos de prazo. Vou conversando e prorrogando”. A ideia é que, em determinado momento, os testes deem os resultados para fundar uma startup.

 

Experiência semelhante, mas com residência já finalizada, viveu Eduardo Del Giglio, fundador da Caju, plataforma de benefícios corporativos com previsão de chegar ao mercado nos próximos meses. A startup foi o resultado prático da experiência que Eduardo viveu, no Brasil, como residente da firma de venture capital Canary. A sua relação com o fundo começou no início do ano, quando ele conheceu um dos fundadores após deixar a McKinsey. “Eu já havia criado uma empresa no início da minha carreira e queria voltar a empreender. Só não tinha cravado qual seria a ideia. Já o Canary estava procurando um executivo para ser um EIR”, disse Del Giglio, que tem 29 anos.

 

O match deu certo e ele ganhou acesso à rede do fundo — de advogados à empreendedores do portfólio – e compartilhou sua experiência e networking. Sua rotina só tinha um compromisso fixo: uma reunião com os sócios do fundo no primeiro horário às segundas-feiras. Após três meses, ele já tinha encontrado sua ideia, estruturado a startup e aprendido como decisões circulam dentro de um fundo.

 

O Canary não instituiu um vínculo formal com Del Giglio mas, quando decidiu finalizar sua residência, a firma participou da primeira rodada de investimento. “É um programa muito aberto porque não há amarras. Eu entrei sem saber onde ia terminar”, diz. Independentemente do formato, os brasileiros que viveram a experiência dizem que ser um EIR – executivo ou executiva – exige habilidades como abertura a mudanças e novas culturas, capacidade de se relacionar e disposição para sair da zona de conforto.


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