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Recrutamento ‘às cegas’ visa contratar sem preconceito


Fonte: Valor Econômico (18 de setembro de 2019 )
Cammila Yochabell, da Jobecam — Foto: Marco Torelli/Facebook

Uma startup brasileira está usando inteligência artificial para evitar preconceito em um momento fundamental para empresas e funcionários – o recrutamento. Batizada de Jobecam, a companhia grava entrevistas de emprego e as envia ao contratante. Mas o recrutador não vê o candidato, cuja aparência é disfarçada e a voz, digitalizada. Em vez da pessoa real, seis personagens digitais são mostrados em sequência durante a entrevista, de um jovem rapaz negro de terno a uma mulher muçulmana coberta com o hijab. A ideia é que a escolha seja definida pelas qualidades do candidato, sem a influência de características como sexo, etnia, idade ou aparência.

 

É o ‘The Voice’ das entrevistas de emprego”, diz Cammila Yochabell, fundadora e presidente da Jobecam. A referência é ao programa musical da TV em que os jurados ficam de costas para os candidatos e só podem vê-los se decidirem apadrinhá-los. Sob o modelo da Jobecam, ocorre algo semelhante.A aparência real do candidato só é vista pelo recrutador depois que ele o seleciona – pode ser para contratação automática ou para levá-lo a outras fases da seleção.

 

São as próprias companhias que definem as perguntas que querem fazer aos candidatos. As pessoas entram no site da Jobecam, veem as vagas e, depois de se candidatar a uma delas, têm de responder imediatamente às questões. Com base nas respostas, o algoritmo começa o processo de seleção. Ninguém é descartado, mas o sistema estabelece um ranking de candidatos à medida que encontra, nas gravações, palavras relativas aos princípios procurados pelo contratante. Quanto mais palavras forem encontradas, melhor a posição do candidato.

 

A Jobecam foi criada por Cammila, cuja formação é na indústria de petróleo e gás, depois de ela voltar desempregada de uma temporada na Nova Zelândia. Como já trabalhara com recrutamento, sua atenção se voltou para essa área. “Passei três dias sem dormir pensando no que fazer”, conta a empresária.

 

Desde 2016, quando a Jobecam foi fundada, cerca de 500 pessoas foram contratadas sob intermédio da startup. Nem todas com entrevistas às cegas. Se quiser, o cliente pode escolher uma modalidade do serviço que exibe os vídeos originais. Hoje cerca de 20 companhias usam os recursos da Jobecam regularmente. Outros 130 estão testando o modelo.

 

O salto nos negócios veio com a Oracle, diz Cammila. Desde 2018, a Jobecam integra o programa de startups da companhia americana de software. Neste ano, foi escolhida como caso mundial e está sendo apresentada na conferência Oracle Open World, que vai até quinta-feira, em San Francisco. A própria Oracle já usou o serviço para contratar 74 pessoas na América Latina.

 

Para as startups, a principal vantagem do programa da multinacional é receber descontos de até 70% no uso de recursos na nuvem, fundamentais para uma empresa como a Jobecam, que grava, armazena e transmite vídeos on-line. “Isso é o mais importante, porque startups não têm dinheiro”, afirma Cammila. O prazo de concessão dos créditos é de dois anos. Depois disso, a expectativa é que a empresa tenha adquirido fôlego suficiente para pagar o preço normal.

 

A Oracle não compra participação acionária nas startups. O objetivo, diz Amy Sorrells, diretora-global de comunicação do programa Oracle para Startups, é aproximar sua tecnologia de companhias que ainda são novas, mas podem se tornar a próxima geração de grupos inovadores. O programa foi criado em 2016 e, a princípio, oferecia local físico para as startups. “Constatamos que em alguns lugares a ocupação era de apenas 20%. Então percebemos que muitos negócios já eram maduros e não precisavam espaço”, conta a executiva. “Passamos a concentrar nossos esforços na concessão dos créditos da nuvem.”

 

A Jobecam já recebeu investimento da Harvard Angels Brasil, formada por investidores que são ex-alunos da universidade americana. Agora, está em busca de uma rodada de investimento de fundos de “venture capital” para ampliar a operação.

 

O modelo de negócio se baseia no pagamento do serviço pelas empresas. Os candidatos não pagam nada. “Vendemos ‘jobecoins’, que são entrevistas com quatro perguntas e até dois minutos de resposta”, diz Cammila. O pacote básico, com cem “jobecoins”, custa R$ 890. O valor médio pago pelos clientes é de R$ 3 mil.

 

Para as companhias, além da adoção de políticas de incentivo à diversidade, o modelo digital pode garantir eficiência e reduzir o custo das contratações, afirma a empresária. Processos convencionais chegam a custar de R$ 6 mil a R$ 7 mil por mês, incluindo salário do recrutador, enquanto as entrevistas por vídeo saem por uma fração desse custo. Dependendo do caso, o valor é de R$ 1 mil, compara Cammila. O tempo gasto nessas tarefas também é reduzido. Em um dos clientes da Jobecam, o prazo diminuiu de 40 para 7 dias; em outro, de dois meses para uma semana.

 

Mulheres, negros e a comunidade LGBTQ+ são grupos tradicionalmente associados ao preconceito na hora de contratar, mas a discriminação vai muito além, diz Cammila. Em conversas, ela já ouviu relatos de pessoas que se sentiram discriminadas porque estavam acima do peso, tinha tatuagem, estavam grávidas ou eram mães recentes. Com a Jobecam, conta, a experiência mostra outro caminho. Em um episódio, uma entrevista às cegas levou à contratação de um deficiente visual – e a uma mudança radical da empresa para se adequar à convivência de quem não pode ver.


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